
Hoje é um dia em que alguns portugueses relembram o dia 25 de Abril de 1974, o que aconteceu nesse dia e dias seguintes e as repercussões em Portugal e na vida de todos os portugueses: contemporâneos ou não desse dia.
Vivemos um tempo em que, possivelmente, mais de metade dos portugueses nasceram depois de 1964, teriam 10 anos em 1974, e não têm memória e ou não são contemporâneos do que se passou nesse dia e os efeitos que esses acontecimentos tiveram daí por diante.
Portugal teve no século XX acontecimentos com singulares implicações que tiveram efeitos redundantes no seu percurso: a implantação da república e o fim da monarquia, a implantação da ditadura em 1926, a guerra em África em 1961/62 e o fim da ditadura e implantação da democracia como modelo ocidental e em linha com os regimes democráticos da Europa.
Aqui vai-se escrever sobre o dia 25 de Abril de 1974, dias seguintes e implicações até aos dias de hoje pelos olhos de um jovem que então tinha 18 anos.
Este jovem vivia em Lisboa, trabalhava e vivia próximo do Instituto Superior Técnico (IST), que tinha, e tem, uma estátua de uma figura importante da 1ª Republica: António José de Almeida.

Como a generalidade dos jovens do seu meio ambiente não tinha quaisquer preferências politicas e aceitava a realidade do dia-a-dia com naturalidade apesar de estar atento para o que iam acontecendo e de que era testemunha: os problemas junto da estátua de António José de Almeida que anualmente aconteciam a cada 5 de Outubro entre a polícia e manifestantes maioritariamente jovens estudantes, as publicações dos alunos do IST através de uma reprografia existente, as conspirações mais ou menos toleradas no café Império, por exemplo. Quanto ao mais a vida era bonita e saudável

Lisboa era uma cidade pequena, terminava nas portas de Benfica e ir á Venda Nova de elétrico era uma aventura.
Este jovem no dia 25 de Abril acordou para ir trabalhar á última, vivia a 5 minutos do emprego, chegou ao trabalho ainda ensonado por consequência da festa da noite anterior e foi confrontado com a informação de que havia um problema na baixa da cidade. Devia regressar a casa pois a empresa estava encerrada.
Irreverente, como quase todos os jovens de 18 anos, apanhou o elétrico do Arco do Cego para o Martim Moniz e foi ver a confusão. Chegado ao local foi testemunha de algo nunca visto: militares armados numas ruas, militares da GNR armados noutras ruas, viaturas pesadas do exército a bloquear outras ruas.


O comentário geral era o de que estava acontecer um levantamento militar contra o governo de então.
Chegada a hora do almoço o jovem interrompeu o seu testemunho deste acontecimento e foi almoçar a casa, apanhou novamente o elétrico de regresso e curiosamente constatou que o movimento nas ruas era o normal de todos os dias. A generalidade das pessoas não sabia o que estava a acontecer.
Após o almoço, o nosso jovem voltou para a cena dos acontecimentos: tinha de saber o que ia acontecer.
Então, a meio da tarde, circulava a notícia de que os acontecimentos mais importantes estavam a acontecer no largo do Carmo e lá foi o nosso jovem, como outras pessoas, para o Carmo.
A cena era o quartel completamente fechado, o exercito com uma viatura pesada estacionada em frente ao acesso principal do quartel em posição de assalto e conversações várias entre militares e GNR.

A determinado momento o nosso jovem e todos os populares que estavam presentes assistiram a uma descarga de tiros impressionante por parte do exército sobre a fachada do quartel. Durante muitos anos depois o quartel do Carmo manteve as marcas dessa descarga de tiro na fachada do edifício.
Dizia-se que o então chefe do Governo Marcelo Caetano e outros ministros estavam dentro do quartel, negociava-se uma solução para aquele cerco e a rendição aos militares revoltosos.
Como a solução tardava, o povo enchia completamente o jardim fronteiro ao quarte e a hora de jantar aproximava-se o jovem desta história entendeu por bem regressar novamente a casa e não assistiu á saída da chaimite com as figuras depostas naquele dia.

Chegada a noite e já depois do jantar o nosso jovem regressou á cena da “acção”. O espaço circulante do quartel do Carmo estava pacificado e a acção tinha-se transferido para a próxima António Maria Cardoso, sede da DGS/PIDE.
Comentava-se que já tinha havido problemas durante a tarde/noite com tiroteios e vitimas. O Exercito tinha isolado o local pelo que já não havia nada para testemunhar.
Nos dias seguintes a acção centrava-se nos arredores da DGS/PIDE com correrias constantes entre populares e pessoas acusadas de serem agentes: as pessoas eram apontadas na rua como agentes e perseguidos até serem espancados. Nunca se soube quantos destes espancamentos foram a agentes da DGS ou a pessoas inocentes que estavam no local errada á hora errada.

Depois veio o 1º de Maio, uma grande festa popular em que o nosso jovem participou, talvez o primeiro grande acontecimento em que a população anónima se envolveu nos acontecimentos da semana anterior: o dia 25 de Abril, o fim da ditadura e uma nova história para Portugal.

Bem hajam