Como quase sempre acontece em Portugal, a inovação digital e a rapidez em a colocar ao serviço do bem público e de uma boa administração pública não acontecem e, quase sempre, parece que não estamos integrados num espaço territorial de vanguarda que é a UE.
Em matéria de inovação digital e utilização dessa mesma inovação o Estado reage tarde, apesar dos exemplos e iniciativas que acontecem nos Países que utilizamos como exemplos em muitas outras iniciativas.
A recente notícia de que o Governo pondera equipar a polícia com micro camaras no fardamento usual dos agentes em serviço no exterior trouxe-me á memória factos de 2009 ocorridos em Londres no Reino Unido.

Não sei quando o governo de Londres decidiu equipar os seus polícias com micro camaras, mas em 2009 já era uma realidade comum e genericamente aceite pelos cidadãos.
Tenho duas memórias daquela época relacionadas com camaras e micro camaras de vídeo e policias, uma quase que caricata mas significativa na demonstração da utilidade deste equipamento e relaciona-se com a proibição de deitar lixo ao chão.
É do conhecimento geral que em Londres só é possível fumar na rua, que existem cinzeiros estrategicamente instalados na vai pública para que os fumadores possam depositar as beatas e que algumas pessoas têm o hábito de deitar as beatas ao chão.

Acontece que num dia de muito frio, ao sair de estação de metro de Stratford, um cidadão acendeu um cigarro e depois de o fumar deitou a beata ao chão, apesar de alguns cinzeiros de rua no local.
Então, um polícia dirigiu-se a esse cidadão e começou um discurso sobre a infração cometida e, de entre os vários argumentos utilizados, informou o infrator de que tinha uma camara no fardamento e que o acto estava registado em vídeo.
Após o esclarecimento sobre a proibição de deitar lixo ao chão, o polícia passou a respetiva multa de 80£ e finalizou o seu trabalho com a recomendação de não reincidir pois que a partir daquele momento passaria a ter um registo permanente da infração cometida.

No que respeita a que os policias venham a ter micro camaras de vídeo no seu equipamento, esta medida aparece com um atraso de mais de 10 anos por comparação com Londres e nem se entende a hesitação que parece haver quanto á utilidade que pode trazer ao desempenho da acção policial: é eficaz pela evidência que permite registar o acto praticado pelo cidadão no exato momento em que acontece e fica para memória futura em necessidade de confirmar eventual acusação e penalização do infrator.
É também dissuasora de muitos actos praticados em que o cidadão pode contestar eventuais erros de acusação ou infração por falta de prova concreta.
A concretizar-se esta iniciativa a polícia sai reforçada na sua autoridade e terá seguramente um impacto positivo na pequena criminalidade ou infrações que regularmente acontecem.
A outra memória tem que ver com uma notícia nada abonatória para a polícia e que estava relacionada com actos violentos praticados por agentes da polícia no interior de um posto de polícia para com uma cidadã que tinha sido transportada para o edificio para averiguações.
Importa esclarecer que em Londres quando a polícia intervém na via pública e quando confrontada com um qualquer problema, o envolvido ou envolvidos são transportados para a o posto de polícia e, então, todas as questões são aí esclarecidas. A polícia nunca trata de problemas e disputas com a autoridade na via pública.

Voltando ao assunto da cidadã em questão, acontece que estava embriagada e a dificultar a ação dos agentes. Deste modo, um ou vários agentes, perante a recusa ou impossibilidade de a cidadã se deslocar pelos seus meios, decidiram arrasta-la pelo chão de um local para outro.
Por consequência, esta cidadã decidiu fazer publicidade do que lhe tinha acontecido e a polícia foi chamada á responsabilidade por práticas indevidas e inaceitáveis á luz dos valores existentes.
Como foi feita a demonstração do que tinha acontecido e denunciado pela ofendida? Os edificios de polícia estão equipadas com camaras vídeo em todos os espaços utilizados pelos não agentes: celas, corredores, local de atendimento, etc.
Naturalmente que o acontecido estava registado e foi fácil comprovar a denúncia de maus tratos, identificaram os infratores e aplicaram os regulamentos com a respectiva punição.

Sou otimista quanto á necessidade de equipar os postos de policia com sistemas de vídeo nas áreas em que os cidadãos podem estar ou circular e já deveria ter sido concretizada: mais uma vez porque permite o registo do comportamento dos cidadãos quer em contexto de detenção em cela, quer em contexto de estarem detidos para procedimentos vários.
Tem, também, a vantagem de ser dissuasor de comportamentos indevidos pela polícia e que em alguns casos implicam violência.
Um País desenvolvido tem o dever de proteger não só os seus polícias dos cidadãos, mas também os cidadãos dos excessos que alguns polícias praticam como por exemplo o recente caso no Aeroporto de Lisboa em que um cidadão morreu.
Se existissem camaras de vídeo no local em que o cidadão esteve detido e veio a falecer certamente que o que aconteceu não aconteceria, ou então não seria necessário um ano para se tentar comprovar o que provocou a morte do cidadão em causa.
Sou cético para com o reconhecimento do Estado da necessidade de equipar instalações de forças de autoridade.
A defesa incondicional dos direitos humanos e respeito pela autoridade do Estado são valores que, infelizmente, ainda vão demorar a ser praticados em Portugal e o exemplo do que acontece no Reino Unido nesta matéria desde há muitos anos pouco importa aos legisladores e políticos que temos.
Termino com uma inovação digital que está a ser utilizada pela polícia de Londres: camaras de vídeo de reconhecimento facial instaladas em locais públicos.

A BBC NEWS publicou em 30 de janeiro de 2020 uma notícia em que escrevia sobre este assunto, junto um pequeno resumo e o link do site para melhor esclarecimento.
“A Polícia Metropolitana anunciou que usará câmaras de reconhecimento facial ao vivo pela primeira vez nas ruas de Londres. As câmaras ficarão com listas personalizadas de suspeitos procurados por crimes graves e violentos elaborados a cada vez…. as câmaras devem ser colocadas em ação dentro de um mês….o comissário assistente Nick Ephgrave disse que o Met tem “o dever” de usar novas tecnologias para manter as pessoas seguras, acrescentando que a pesquisa mostrou que o público apoiou a mudança….Ephgrave disse que o sistema também pode ser usado para localizar crianças desaparecidas ou adultos vulneráveis.”

Ao ritmo a que estas inovações são introduzidas em Portugal, possivelmente só quando a UE tomar conta da segurança do estado e dos cidadãos portugueses, europeus e não europeus residentes em Portugal é que poderemos ambicionar a ter decisões sobre este assunto.
Bem hajam