Confiança ou (des) Confiança

O Outono trouxe uma realidade triste evidenciando, mais uma vez, que, em Portugal, muitos dos protagonistas políticos não estão a mínimos de ocuparem os cargos políticos e de governação que os cidadãos lhes confiam em eleições.

Desde 2016, a atividade política, os seus protagonistas e os partidos políticos que os suportam tiveram como resultados estagnação económica, dívidas para as futuras gerações de portugueses e uma consequência que porventura terá efeitos por muitos anos: a (des) confiança de um povo.

Os pressupostos, em 2016, já não auguravam uma época para grandes feitos de Portugal e, principalmente, para os anos que se seguiriam e o País bem precisava.

Os anos antecedentes tinham sido duros para os portugueses, foram os anos do resgate de Portugal da bancarrota.

O ano de 2016 trouxe-nos a novidade de o partido político, acabara de ganhar as eleições, que se preparava para continuar o trabalho que tinha realizado, assessorado e controlado (foi a Troika) pelas instituições da UE e do FMI, ser afastado do poder e ceder a um outro que as tinha perdido, o PS.

Surpresa para muitos, mas constitucional e aconteceu. Certamente criou uma desconfiança no modo como o PS “arranjou” a solução: utilizar o apoio, para poder governar em minoria, de partidos radicais, de protesto e de reivindicação fácil e permanente. O Presidente da Republica exigiu um compromisso de governação por escrito, revelou desconfiança na solução.

Então, o PS tinha um passado com experiência de governação e um histórico de aceitar um sistema económico liberal, estava em linha com as políticas da UE e, deste modo, os portugueses aceitaram que o governo inicia-se funções.

Os portugueses terminavam um período de anos difíceis e as promessas de reposição de vencimentos antes reduzidos, de um estímulo ao desenvolvimento económico e consequente criação de riqueza e do fim da austeridade eram suficientes para acreditar que seria possível reiniciar um ciclo positivo para todos nós.

Os anos de 2016 e 2017 foram de reposições salariais aos cidadãos e a economia parecia que conseguiria arrancar para níveis de crescimento aceitáveis. No entanto, também começaram a aparecer alguns sinais de que algo não estava a correr bem.

A dívida pública crescia a um ritmo superior ao crescimento económico, o PS começava a dar sinais de centralização com reversões de privatizações antes feitas, a renacionalizar a saúde, a educação, e a seguir a cartilha dos partidos radicais que o suportavam.

Não obstante, estes partidos radicais, PCP (mais satélite Os Verdes) e Bloco de Esquerda, reclamavam que compromissos não eram cumpridos e que a confiança inicialmente creditada se estava a esgotar.

Com o PS a sair do seu histórico de economicamente liberal, a confirmar a sua vertente despesista, a surpreender com políticas no sentido de reforço do peso do Estado e, face às obrigações que Portugal tem para com a UE, as despesas públicas iniciaram um trajeto de crescimento colocando a dívida pública em níveis alarmantes. As receitas cobradas aos portugueses aumentaram desmesuradamente com mais e maiores impostos, taxas e taxinhas.

O governo não conseguiu dar aos portugueses o que prometeu e nos anos seguintes viu agravar serviços que assumiu como suas bandeiras: a saúde, os serviços sociais e a educação.

Foi alimentando as suas clientelas eleitorais e as dos partidos radicais que o suportavam com a satisfação de reivindicações isoladas e desligadas de qualquer estratégia.

O PS não prestou um bom serviço ao país e o cidadão que escolheu para primeiro-ministro revelou não estar preparado para o desafio.

2021 Acabou por ser o ano em que a desconfiança das capacidades do governo por parte dos partidos radicais terminou ao retirarem o total apoio á aprovação do orçamento de estado para 2022. Nem a prorrogativa da abstenção permitiram.

Fica a faltar a fatura destes anos de liderança do Estado. Esperemos que para além do agravamento da dívida pública não tenhamos nenhuma má surpresa, já bastou a fatura que o PS deixou em 2011.

E o futuro?

Será, certamente, mais do mesmo: o PS ou o PSD. Aos outros partidos o eleitorado não reconhece mínimos.

Caracterizam -se por serem partidos de protesto (sempre arranjam causas para protestar) e por reivindicar (também sempre arranjam causas para reivindicar). É o chamado “sistema” (democracia á portuguesa) que historicamente tem resultados aquém dos compromissos.

A oferta política em Portugal é reduzida e historicamente de má memória.

No entanto, na UE, de que fazemos parte, existem outras democracias com resultados completamente diferentes, para melhor. Seria bom que surgissem alternativas de governo inspiradas nessas democracias.

 Os portugueses, nos anos que levo de vida, têm assistido a momentos de confiança que logo se transformam em desconfiança:

  • Foi a confiança num Portugal melhor com o 25 de Abril e logo veio a desconfiança com o drama dos retornados das colónias, as nacionalizações, a necessidade de pedir apoio externo e a economia a cair a pique.
  • Foi a confiança da entrada de Portugal na CEE e as oportunidades que se abriam de colocar os portugueses ao nível de outros países mais desenvolvidos e logo veio a desconfiança que governos sucessivos provocaram com má utilização de fundos, corrupção, um Estado que não soube impulsionar a economia para níveis de criação de riqueza suficientes e que culminou, em 2011, com uma ameaça de bancarrota.
  • Agora, porque está fresco ainda, foi a confiança num governo que surpreendeu ao permitir a partidos radicais influenciar. Passados 6 anos a desconfiança instala-se novamente: o crescimento económico foi residual, a dívida externa cresceu e a pobreza aumentou.

O Inverno ameaça somar a esta falta de soluções, para um governo que consiga devolver confiança, um novo crescimento dos perigos que todos vivemos desde há 2 anos com os surtos virais.

Esperemos que os próximos capítulos possam proporcionar, novamente, confiança. Que os partidos saibam escolher protagonistas com perfil suficiente para governar bem, com honestidade.

Bem hajam.

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