Uma reflexão sobre o homem que moldou a política e os media em Portugal

Discreto na presença e firme nas convicções, Francisco Pinto Balsemão foi uma das figuras mais singulares da vida pública portuguesa. Entre a política e o jornalismo, construiu uma obra onde o poder se exercia com reserva, o debate com inteligência e o tempo com prudência — virtudes raras, sobretudo num país ainda em transição para a democracia quando o seu nome começou a destacar-se.
Carácter e estilo pessoal
A sobriedade e o sentido ético foram marcas constantes na forma como Balsemão enfrentou a vida pública. Nunca se deixou seduzir pelo ruído fácil da popularidade. Preferia o raciocínio à retórica, o diálogo à imposição. Representava uma ideia de liderança que conciliava competência e contenção — e que, nos dias de hoje, talvez pareça quase anacrónica.

Vida política
Foi um dos fundadores do Partido Social Democrata e, após a morte trágica de Sá Carneiro, assumiu o cargo de primeiro-ministro num período de grande instabilidade. Governou com sentido institucional e profundo respeito pela democracia, num tempo em que o país ainda consolidava o seu futuro político. O seu estilo moderado contrastava com o fervor ideológico que dominava a época, o que explica a influência mais duradoura da sua atitude do que das suas medidas.
O jornalista e o fundador do Expresso
Antes de ser político, Balsemão foi jornalista — e talvez nunca tenha deixado de o ser. Fundou o Expresso em 1973, um jornal que rapidamente se tornou uma referência de qualidade e independência editorial. Num Portugal ainda dividido, o Expresso representava uma janela de liberdade responsável: crítica, mas nunca demagógica; corajosa, mas sempre informada.

O empresário e a criação da SIC
Com a fundação da SIC em 1992, Balsemão abriu uma nova página no panorama mediático português. A televisão privada trouxe diversidade, pluralismo e modernização técnica. A sua visão empresarial manteve o mesmo traço cívico que sempre o caracterizou: acreditar que a comunicação social é um pilar essencial da democracia, e não apenas um negócio.

Influência na sociedade portuguesa
Mais do que o político ou o empresário, fica a figura do cidadão. Um homem que acreditava na força das instituições e no dever da responsabilidade pública. O seu contributo para a consolidação da democracia e para a liberdade de imprensa ultrapassa cargos ou empresas — é parte do próprio tecido cívico do país.
Francisco Pinto Balsemão foi, acima de tudo, um construtor silencioso. A sua influência não se media em aplausos, mas em legado. E talvez seja essa a forma mais digna de poder: aquela que se exerce com discrição, mas que perdura no tempo.
