A leitura ideológica destes dois ismos
Na Europa democrática, o confronto entre esquerda e direita não se faz apenas de políticas ou programas.
O que as distingue, cada vez mais, é a visão moral e simbólica do que a sociedade deve conservar — e do que deve poder decidir.
É neste terreno que estes dois ismos, o conservadorismo e o soberanismo, assumem sentidos distintos conforme o olhar ideológico.
Ambos partem da mesma inquietação: a sensação de que a globalização, a burocracia e a tecnologia dissolveram o espaço político onde o cidadão se reconhece.
Mas a resposta é diferente: para a esquerda, a soberania deve proteger as pessoas; para a direita, deve proteger a cultura.

A esquerda e o soberanismo democrático
A esquerda europeia tem uma relação complexa com a ideia de nação.
Durante grande parte do século XX, preferiu o internacionalismo — a solidariedade entre povos, acima das fronteiras.
O nacionalismo era visto como instrumento burguês, um disfarce das desigualdades sociais.
Contudo, nas últimas décadas, e sobretudo após a crise financeira de 2008, algo mudou.
Os partidos e movimentos de esquerda começaram a falar em soberania democrática — o direito de um povo decidir as suas políticas económicas e sociais sem imposições externas.
Na Grécia, o Syriza; em Espanha, o Podemos; em Portugal, parte da esquerda socialista e do Bloco de Esquerda; e em Itália, setores próximos da esquerda pós-comunista — todos resgataram o conceito de autodeterminação popular.
Não para exaltar a nação, mas para restituir ao Estado o poder de proteger os mais fracos.
Para esta esquerda, a soberania é instrumento de justiça social: serve para garantir trabalho, serviços públicos, segurança económica.
O conservadorismo, pelo contrário, é-lhe suspeito — visto como defesa do status quo, das hierarquias e da moral tradicional.
A esquerda europeia conserva, sim, mas a memória das lutas sociais, não as estruturas da tradição.

A direita e o nacionalismo cívico
Na direita, o movimento é o inverso.
O conservadorismo continua a ser a linguagem moral da ordem e da continuidade, e o soberanismo, a linguagem política da independência.
Mas há divisões internas.
A direita liberal e democrata-cristã (como a do pós-guerra) vê no conservadorismo um princípio de equilíbrio: a defesa da moral pública, da família e das instituições, sem rejeitar o pluralismo.
Aceita a integração europeia como meio de estabilidade e de paz.
O seu soberanismo é moderado e cooperativo — defende a autonomia nacional, mas dentro das regras comuns.
Já a nova direita soberanista, que cresce em vários países (França, Itália, Hungria, Polónia, Espanha e Portugal), reivindica um tom mais assertivo.
Denuncia o que considera a erosão cultural e democrática provocada pela globalização e pela centralização em Bruxelas.
Para estes movimentos, ser soberano é reconstruir a comunidade moral e política, recuperar fronteiras, autoridade e pertença.
O seu conservadorismo é identitário, e o seu soberanismo é reivindicativo.
Ambos procuram devolver à nação o papel de sujeito histórico — não apenas uma peça da engrenagem internacional.

Convergências e divergências
Entre a esquerda e a direita europeias, há mais pontos de contacto do que parece.
Ambas falam em autonomia, ambas criticam o poder distante e tecnocrático, e ambas invocam a soberania como forma de recuperar o controlo do destino coletivo.
Mas divergem no fundamento moral da sua soberania:
| Dimensão | Esquerda Democrática | Direita Conservadora |
| Finalidade da soberania | Proteção social e justiça económica | Defesa da identidade e da cultura |
| Visão da comunidade | Universalista e solidária | Nacional e orgânica |
| Relação com a tradição | Crítica ou seletiva | Valorizadora e moral |
| Soberanismo dominante | Democrático e popular | Político e cultural |
| Perigo percebido | A opressão interna | A dissolução externa |
No fundo, ambas tentam salvar o mesmo valor: a liberdade política, mas entendem-na de forma oposta.
Para a esquerda, a liberdade é coletiva e material — depende de igualdade e bem-estar.
Para a direita, é moral e institucional — depende de ordem e pertença.
A Europa entre dois medos
A Europa vive hoje entre dois medos complementares:
- o medo da rutura social, que anima a esquerda;
- e o medo da dissolução cultural, que inspira a direita.
Os dois olhares descrevem faces diferentes da mesma ansiedade: a perda de controlo.
Num mundo dominado por forças económicas e tecnológicas globais, estes dois ismos aparecem como tentativas de reenraizar o poder e o sentido — um em nome do povo, o outro em nome da civilização.
O desafio, porém, é que ambos podem resvalar:
- o soberanismo democrático, se levado ao extremo, pode tornar-se populismo económico;
- o conservadorismo identitário, se fechado sobre si, pode transformar-se em exclusivismo moral.
A fronteira entre virtude e risco está na moderação — a virtude clássica da política europeia.
Conclusão: o reencontro com a responsabilidade
A leitura ideológica do conservadorismo e do soberanismo mostra que não são monopólio de nenhuma corrente política.
São expressões de uma inquietação mais profunda: a de saber se o ser humano pode continuar a viver livre sem perder raízes.
A esquerda teme a desigualdade; a direita teme o vazio moral.
Ambas temem a perda de sentido.
Talvez por isso, em tempos de fragmentação, estes dois ismos voltam a unir o que o século XX separou: o sentimento de comunidade e a exigência de autogoverno.
A questão não é de partido, mas de responsabilidade civilizacional.
E essa, ainda que com nomes diferentes, é uma causa comum.
Bem Haja.
Leituras recomendadas:
- Chantal Mouffe —Por um Populismo de Esquerda
- Thomas Fazi — Retomando o Estado
- Pierre Manent — A Razão das Nações
- Ryszard Legutko — O Demónio na Democracia
Nota do autor:
Este texto não tem pretensões académicas. É uma reflexão pessoal sobre temas que me interessam enquanto cidadão e observador do nosso tempo.
Este texto teve a colaboração de IA