O retorno do político na Europa I

O que os pensadores de direita conservadora realmente dizem sobre o “abalo populista” na Europa

“O populismo é a resposta de sociedades que sentem que foram administradas, não representadas.”

John Gray

Depois de décadas dominadas por economistas, tecnocratas e gestores, a Europa está a reencontrar a política: no bom e no mau sentido.
As pessoas querem voltar a discutir valores, pertença, fronteiras, deveres, limites.
Isto não é um retrocesso: é a democracia a respirar outra vez.
O perigo não é a política — é a política sem caráter.

O risco real não é a direita nem a esquerda: é a indiferença

Hoje fala-se muito de “ameaças” vindas dos extremos, mas a maior ameaça é sempre a mesma: a apatia cívica.
Quando as pessoas deixam de se interessar, outros, menos interessados no bem comum, ocupam o vazio.
A democracia morre mais depressa por abandono do que por ataque.

A Europa perdeu o consenso moral e isso está a doer

“Uma política que deixa de falar a língua moral do seu povo perde a autoridade para o governar.”
Pierre Manent

Conservadores falam de valores, progressistas falam de direitos, mas já não há um vocabulário comum. O resultado é um diálogo cheio de palavras iguais e significados diferentes.
A Europa precisa de reencontrar uma gramática moral partilhada: não para uniformizar, mas para compreender. Sem isso, tudo é ruído.

O populismo não surge do nada: é uma reação ao vazio moral do centrão

O populismo não brota do nada: ele floresce quando o “centro” político deixa de oferecer sentido, pertença e direção. Quando a política vira pura gestão tecnocrática, higiénica e sem alma. Muita gente sente que o seu mundo está a ser administrado, não representado.

Esse vazio moral e simbólico abre espaço para quem promete devolver voz, identidade e conflito legítimo ao povo. O populismo entra aí: como grito, não como programa.

Não é só raiva, é sinal de que a política deixou de tocar no essencial.

Ideia central da direita séria

O centrão (socialismo + social democracia + liberalismo tecnocrático) criou um regime de gestão, não de sentido.

O centrão juntou várias famílias políticas num consenso confortável: gerir a economia, gerir os serviços, gerir o Estado. Tudo muito estável, muito técnico… mas sem dizer para quê, em nome de quem ou com que visão de futuro.

Socialistas moderados, sociais-democratas e liberais tecnocráticos acabaram por convergir num modelo que funciona bem como máquina administrativa, mas pobre como proposta moral.

Há políticas, mas não há um rumo; há soluções técnicas, mas não há narrativa comum.

E quando a política perde sentido, o eleitor começa a procurá-lo noutro lado — e aí o populismo aparece como reação, não como capricho.

Perdeu ligação com:

  • comunidade,
  • pertença,
  • identidade,
  • fronteira,
  • autoridade,
  • responsabilidade.

O centrão criou desorientação: esquemas económicos incompreensíveis, decisões tomadas em gabinetes distantes e identidades acusadas de “retrógradas”. O centrão produziu um ambiente onde muita gente sente que perdeu o chão.

A combinação de economia opaca, tratada como engenharia para especialistas, com decisões tomadas longe da vida real, tornou a política algo distante e quase irrelevante para o cidadão comum.

Ao mesmo tempo, a moral pública tornou-se líquida, sempre em mutação, sem pontos de referência partilhados. E quem tenta apoiar-se numa identidade mais estável (nacional, cultural, religiosa, familiar) é muitas vezes rotulado de “atrasado”.

O resultado? Desorientação. E essa desorientação não é acidental: é o sintoma de uma política que administra, mas já não guia; regula, mas já não oferece pertença. É nesse vazio que o populismo cresce.

Uma Europa que deixou de falar a língua moral das pessoas comuns

“Quando as elites deixam de acreditar no povo, o povo deixa de acreditar na democracia.”

Ivan Krastev

A Europa institucional passou a falar numa gramática abstrata: direitos sem deveres, diversidade sem comunidade, progresso sem raízes. Tudo em linguagem técnica, jurídica, ou moralmente “neutra”. Só que as pessoas comuns não vivem em abstrações: vivem em vizinhanças, famílias, tradições, hábitos, pertenças.

Quando a política deixa de falar essa língua moral: feita de lealdade, responsabilidade, memória, limite, continuidade cria-se um fosso entre governantes e governados. Os líderes parecem pairar acima da sociedade, enquanto o cidadão fica a sentir que a sua forma de vida é invisível ou até embaraçosa para quem manda.

E quando uma civilização deixa de se reconhecer na voz dos seus dirigentes, alguma coisa mais funda começa a falhar.

O populismo entra a preencher o vazio, não a destruir o sistema

O Populismo não nasce para derrubar o sistema; nasce porque o sistema deixou de comunicar, de representar e de oferecer sentido. Quando o espaço político dominante se torna plano, tecnocrático, moralmente tímido e culturalmente alheado, abre-se um buraco. E a política não tolera vácuo.

O populismo entra aí como força de reaproximação: devolve voz, dramatiza conflitos reais, reintroduz pertença, obriga o sistema a ouvir. Muitas vezes é rude, imperfeito, barulhento, mas é um sinal de que a sociedade ainda quer ser vista e ouvida.

A destruição só aparece quando o próprio sistema insiste em não aprender nada e continua a tratar o mal-estar como “ignorância do povo” em vez de como aviso sério. O impulso original, esse, é de preenchimento, não de ruína.

“O populismo não é um projeto político: é o retorno do povo ao espaço público, depois de ter sido excluído.”

Pierre Manent

Bem Haja

Nota do autor:

Este texto não tem pretensões académicas. É uma reflexão pessoal sobre temas que me interessam enquanto cidadão e observador do nosso tempo.

Este texto teve a colaboração de IA

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