O populismo é uma mistura de diagnóstico correto com soluções imperfeitas
Os conservadores sérios reconhecem o seguinte:
Diagnóstico correto:
- Afastamento das elites políticas.
- Desprezo pelo mundo rural.
- Erosão da classe média.
- Perda de segurança física e cultural.
- Burocracia drenando soberania.
Soluções nem sempre maduras, podem ser reativas:
- Fecham fronteiras sem plano.
- Simplificam problemas complexos.
- Têm discursos emocionais demais.
O populismo acaba por ser uma mistura curiosa: acerta muitas vezes no diagnóstico, mas tropeça quando chega à parte das soluções. E os conservadores mais sérios reconhecem isso sem grandes dramas.
Eles veem que há problemas reais e profundos por trás da revolta popular: a distância crescente entre as elites políticas e o cidadão comum, o desprezo constante pelo mundo rural, a classe média a perder fôlego ano após ano, a sensação de insegurança — tanto física como cultural — e uma burocracia pesada que parece engolir pedaços da soberania nacional.
O problema é que, apesar de acertarem no que está mal, as respostas populistas nem sempre vêm bem cozinhadas. Muitas vezes são reativas, feitas no calor do momento.
Fecham fronteiras sem um plano de longo prazo, tratam questões complexas como se fossem puzzles de duas peças e exageram nos discursos carregados de emoção, como quem tenta compensar a falta de estrutura com volume.
No fundo, o populismo não é a doença em si — é apenas o sintoma de algo mais fundo que se andou a ignorar durante demasiado tempo. É como uma febre política: aparece porque há qualquer coisa no organismo social que não está a funcionar bem.
Só que, em vez de tentar perceber o que realmente está a causar essa febre, a narrativa anti-populista da esquerda e do centrão prefere vestir uma postura moralista. Em vez de analisar, apontam o dedo. Em vez de tentar compreender o fenómeno, catalogam-no como defeito de caráter.
“O populismo não é um projeto político: é o retorno do povo ao espaço público, depois de ter sido excluído.”
Pierre Manent
A narrativa anti-populista da esquerda e do centrão é moralista, não analítica
A direita intelectual costuma resumir bem esta atitude: sempre que aparece um movimento populista, a reação automática do centrão e da esquerda é diabolizar, moralizar, tratar como patologia, ridicularizar e, se possível, censurar. Fazem tudo — menos tentar perceber de onde vem o descontentamento que alimenta esses movimentos.
É sempre tudo, menos tentar compreender. A esquerda prefere atirar rótulos em vez de fazer perguntas. Assim, os populistas viram automaticamente “fascistas”, “xenófobos” ou “antidemocráticos”, como se essas etiquetas resolvessem alguma coisa ou explicassem a origem do mal-estar que os faz crescer.
A direita séria costuma responder de forma mais ponderada: o populismo não é uma rejeição da democracia — é quase o contrário disso. É uma espécie de excesso de democracia direta a reagir contra um excesso de tecnocracia. É o povo a tentar recuperar espaço num sistema que passou demasiado tempo entregue a especialistas, gabinetes e instituições que ninguém elegeu.
“O que irrita as elites não é o populismo, é o povo”
Ryszard Legutko
O futuro da direita não é populista nem centrista — é conservador soberanista moderado
O caminho da direita para o futuro não passa nem pelo populismo inflamado nem pelo regresso conformado ao centrão.
A alternativa que vai ganhando força entre os pensadores mais sérios é uma direita conservadora e soberanista, mas moderada — firme nos princípios, sem cair em gestos impulsivos.
Esses autores insistem que a solução não está em voltar ao centrão, que já provou ser incapaz de responder ao desgaste social e cultural dos últimos anos. Mas também não está em ficar para sempre preso a um populismo reativo, que vive do curto prazo e do protesto permanente. A ideia é outra: construir um rumo estável, realista e capaz de proteger a comunidade sem perder a cabeça.
Um conservadorismo com soberania, mas sem isolamento
“A nação é a forma política através da qual um povo continua livre”
Pierre Manent
A ideia aqui é devolver ao país a capacidade de decidir o seu destino sem se fechar numa bolha.
Durante décadas a constante na narrativa foi de que só havia duas opções: ou se entregava o poder a instâncias supranacionais, ou se fechava numa fortaleza contra o mundo.
Os conservadores modernos rejeitam essa falsa escolha.
A soberania que defendem é prática, não teatral, passa por:
- ter fronteiras controladas, mas manter fluxos económicos e diplomáticos abertos;
- participar em alianças, mas sem aceitar que burocracias externas ditem leis internas;
- cooperar, mas sem servilismo;
- negociar, não ajoelhar.
É a diferença entre um país que age e um país que reage. Entre ser parceiro e ser satélite.Não se trata de virar costas ao mundo, mas de voltar a estar de pé dentro dele.
É uma soberania que não quebra pontes, apenas exige que as pontes sejam de dois sentidos.
“Sem capacidade de decidir por si, uma democracia deixa de o ser”
Giovanni Sartori
Identitário, mas não xenófobo
“Amar a casa não significa odiar o vizinho”
Roger Scruton
Este ponto é dos mais mal-entendidos.
Falar de identidade virou quase um tabu, como se qualquer valorização da cultura nacional fosse automaticamente um ataque a quem é diferente. Os conservadores sérios rejeitam essa chantagem moral.Para eles, identidade é memória, continuidade e pertença, não hostilidade.
É reconhecer que um país não é apenas um espaço geográfico; é um modo de viver que se transmitiu ao longo de gerações.E proteger isso não implica desprezar quem vem de fora.
Implica apenas ter regras claras:
- acolher quem quer contribuir,
- integrar quem chega,
- recusar guetos e paralelismos culturais,
- exigir respeito aos costumes e leis da casa.
- É a ideia simples e justa: quem entra é bem-vindo, mas entra numa casa com história — não num centro comercial vazio.
A identidade aqui não é grito, é raízes. Não é medo do outro, é amor ao que é nosso.
É um “sim” tranquilo à cultura própria, não um “não” agressivo ao estrangeiro.
“Uma cultura confiante não precisa excluir: basta saber quem é”
Rémi Brague
Tradicionalista, mas não imobilista
“Um Estado sem meios de mudar carece de meios para se conservar.”
Edmund Burke
Ser tradicionalista não é viver agarrado ao passado como quem abraça uma âncora.
É reconhecer que as tradições existem porque funcionaram, porque deram estabilidade e sentido à vida das pessoas.
Mas isso não significa que a sociedade tenha de ficar congelada numa fotografia antiga.
O tradicionalista moderno vê a tradição como um fio contínuo, não como um museu fechado. É herança que se transmite, não peça de arqueologia intocável.
A lógica é esta:
- preservar o que sustenta a vida em comum,
- atualizar o que precisa de acompanhamento,
- adaptar sem destruir,
- reformar sem romper.
É a ideia de continuidade viva: a tradição não é uma jaula, é um tronco — sólido, mas com ramos que crescem.
Enquanto o progressismo quer reinventar tudo todos os anos, e o reacionarismo quer voltar para um tempo que já não existe, o conservador tradicionalista prefere melhorar o que temos, sem amputar a memória que nos trouxe até aqui.
Não é imobilismo, é prudência com sentido histórico.
“A tradição não é um grilhão, é uma conversa contínua entre gerações”
Michael Oakeshott
Pró-comunidade, mas não anti-liberal
“As associações civis são a escola da liberdade”
Alexis de Tocqueville
Os conservadores modernos defendem comunidade não como coletivismo estatal, mas como tecido social vivo: família, vizinhança, associações, voluntariado, instituições locais. É este “pequeno mundo” que dá às pessoas pertença, suporte e responsabilidade mútua.
Mas isto não implica negar a liberdade individual nem o mercado.
Pelo contrário: uma comunidade saudável precisa de gente livre, não de cidadãos tutelados por um Estado gigante.
A visão é simples:
- a comunidade protege,
- o indivíduo empreende,
- o Estado garante regras claras e ninguém engole o espaço do outro.
É uma alternativa tanto ao individualismo radical (“cada um por si”), como ao estatismo sufocante (“o Estado faz tudo por ti”).
A comunidade dá raízes, a liberdade dá asas. E a combinação das duas evita tanto a solidão moderna como a dependência estatal.
O objetivo não é nivelar as pessoas, é conectá-las. É ter um país onde o indivíduo pode prosperar, mas nunca à custa de destruir os laços que tornam uma sociedade humana.
“Sem comunidades fortes, o indivíduo fica entregue ao Estado”
Robert Nisbet
Bem Haja
Autores Citados:
- Alexis de Tocqueville
- https://pt.wikipedia.org/wiki/Alexis_de_Tocqueville
- Edmund Burke
- https://pt.wikipedia.org/wiki/Edmund_Burke
- Giovanni Sartori
- https://pt.wikipedia.org/wiki/Giovanni_Sartori
- Michael Oakeshott
- https://pt.wikipedia.org/wiki/Michael_Oakeshott
- Pierre Manent
- https://en.wikipedia.org/wiki/Pierre_Manent
- Rémi Brague
- https://pt.wikipedia.org/wiki/R%C3%A9mi_Brague
- Robert Nisbet
- https://pt.wikipedia.org/wiki/Robert_Nisbet
- Roger Scruton
- https://pt.wikipedia.org/wiki/Roger_Scruton
- Ryszard Legutko
Nota do autor:
Este texto não tem pretensões académicas. É uma reflexão pessoal sobre temas que me interessam enquanto cidadão e observador do nosso tempo.
Este texto teve a colaboração de IA