O retorno do político na Europa III

Populismo: como desmontar o ruído da esquerda e do centrão?

Separar rótulo de conteúdo

“Rótulos não são explicações. Muitas vezes são substitutos de explicações.”
Thomas Sowell

Quando alguém dispara a palavra “populista”, normalmente está a tentar ganhar a discussão sem ter de a fazer. É um atalho retórico: em vez de explicar porque discorda de uma proposta, cola um rótulo que supostamente resolve o assunto. Por isso, o primeiro passo é sempre puxar o travão e perguntar: Quando chamam X de populista, o que é que estão a descrever, exatamente?”

Só esta pergunta, dita com calma, muda a iniciativa. Porquê? Porque obriga o outro lado a sair da espuma das emoções e a entrar nos detalhes. E os detalhes contam.

A que é que se podem estar a referir?

Três possibilidades muito comuns:

  • O estilo retórico, pode ser simplesmente uma maneira de comunicar que usa o clássico “o povo vs. as elites”. Isso é estilo, não é política pública. Dois políticos podem defender a mesma medida, mas um fala de forma emocional e o outro de forma técnica: só um é chamado populista.
  • Políticas concretas, ás vezes o rótulo aparece quando alguém propõe algo polémico ou anti-consenso. Só que discordar de uma medida não significa que ela seja “populista” no sentido analítico. Significa apenas… discordar.
  • Puro gesto para deslegitimar, em muitos casos, não há estilo específico nem políticas diferentes: só há conveniência política. “Populista” vira sinónimo de “não gosto” ou “não pertence ao meu pensamento”. É aqui que o rótulo perde totalmente o conteúdo e vira arma.

É por isso que separar o termo do conteúdo real corta mais de metade do ruído. A conversa deixa de ser sobre etiquetas e passa a ser sobre o que importa: argumentos, propostas, evidências.

“Antes de discutirmos ideias, precisamos primeiro de concordar sobre o significado das palavras que usamos.”
Raymond Aron

Pedir critérios consistentes

Depois de clarificar o que o rótulo quer dizer, vem o segundo movimento: coerência nos critérios. Se alguém diz: “Partido X é populista porque critica a UE”, a pergunta óbvia é: “Então quando o teu partido critica a UE, isso também é populismo?”

Isto não é provocações, nem truques. É lógica básica: se um critério vale para uns, tem de valer para todos. Caso contrário, não estamos a falar de análise — estamos a falar de preferências políticas mascaradas de análise.

“Honestidade intelectual exige que apliquemos a nós próprios os mesmos padrões que aplicamos aos outros.”
Karl Popper

O que acontece quando se pede coerência?

Uma de duas coisas:

  1. A pessoa ajusta o critério e a conversa fica mais séria.
    Pode dizer: “Ok, não é só criticar a UE; é criticar a UE enquanto se apela à divisão moral entre povo bom e elites corruptas”. Muito bem, aqui já estamos num nível mais sólido.
  2. O discurso desmancha-se. Quando o critério só funciona num campo político e nunca no outro, fica claro que estamos perante “ruído moral”: indignação seletiva, não análise objetiva.

E é isto que muitas vezes está escondido por trás das grandes palavras: previsões sombrias, indignações repentinas, rótulos rápidos. Tudo isso gera barulho, não esclarecimento.

Pedir critérios consistentes força o debate a ficar honesto. Mesmo quando não há acordo, pelo menos há terreno comum.

Distinguir medo legítimo de alarmismo

“A democracia não é tão frágil quanto afirmam os seus críticos, nem tão indestrutível quanto assumem os seus defensores.”
Fareed Zakaria

Um dos grandes problemas do debate político atual é que tudo é drama. Há riscos reais na democracia moderna? Claro que há e ignorá-los seria ingenuidade. Só que misturar riscos concretos com previsões apocalípticas cria mais confusão do que clareza.

Medo legítimo é uma coisa…

Há sinais que merecem atenção séria: tentativas de enfraquecer tribunais ou limitar independência judicial, pressão direta sobre jornalistas ou meios de comunicação, tentativas de capturar o Ministério Público ou órgãos de supervisão ou mudanças constitucionais feitas para beneficiar quem está no poder.

Quando isto acontece — seja à esquerda, ao centro ou à direita — é normal que as pessoas fiquem preocupadas. Isto é medo legítimo, porque tem base factual.

Alarmismo é outra completamente diferente

“A política é a arte do exagero.”
George Bernard Shaw

O alarmismo aparece quando qualquer partido fora do “arco tradicional” é imediatamente descrito como ameaça existencial. A velha frase “vem aí o fascismo” é um bom exemplo: usa-se antes de haver ações concretas que justifiquem tal rótulo.

A questão é simples: se tudo é crise democrática, nada é crise democrática.
Quando o alarme toca sempre, as pessoas deixam de ouvir quando há motivo real para ouvir.

A tarefa honesta

O trabalho sério não é abraçar previsões negras nem ser ingénuo. É separar:

  • casos onde houve retrocesso democrático mensurável,
  • casos onde houve apenas medo político, exagero ou tentativa de controlar a narrativa.

Este filtro obriga a discutir factos, não antecipações emocionais.

Olhar para a realidade, não só para narrativas

A melhor forma de cortar o ruído é ir aos indicadores concretos. Em vez de discutir sensações ou slogans, olha-se para o que realmente mudou (ou não mudou) na prática.

Perguntas simples que limpam muito ruído:

  • Houve alterações constitucionais que concentram poder?
  • Houve pressões sistemáticas e documentadas sobre juízes?
  • Os jornalistas foram impedidos de trabalhar ou houve tentativas de controlar meios de comunicação públicos?

Quando exemplos como os anteriores acontecem, há motivo para preocupação séria.
Quando não acontecem, talvez a narrativa do “fim da democracia” seja mais um slogan mobilizador do que uma análise.

Não significa que não existam tensões políticas — significa apenas que tensão não é automaticamente colapso institucional.

Porquê insistir em factos reais?

“Os factos não deixam de existir só porque são ignorados.”
Aldous Huxley

Porque estes não gritam, não levantam bandeiras, não fazem teatro. Eles mostram o que está a acontecer e também o que não está. E muitas vezes é isto que corta o exagero: confronto entre narrativa e evidência.

Em resumo, desmontar o ruído passa por três movimentos muito simples:

  1. Pedir definições claras: o que se quer dizer, exatamente?
  2. Pedir critérios coerentes: valem para todos ou só para alguns?
  3. Pedir evidência concreta; houve mudanças institucionais reais?

Sem isto, o debate é uma troca de rótulos. Com isto, é possível separar análise séria de dramatização política.

Autores citados:

Nota do autor:

Este texto não tem pretensões académicas. É uma reflexão pessoal sobre temas que me interessam enquanto cidadão e observador do nosso tempo.

Este texto teve a colaboração de IA

Deixe um comentário