O retorno do político na Europa IV

O Populismo é uma ideologia ou um processo?

“O populismo não é um conteúdo ideológico, é uma lógica política de construção do povo enquanto sujeito.”
Ernesto Laclau

Na maior parte da literatura académica recente, a resposta tende a cair para o mesmo lado: o populismo não é bem uma ideologia fechada, é mais um estilo ou uma lógica política. Não tem densidade doutrinária suficiente para competir com pacotes ideológicos clássicos — socialismo, liberalismo, conservadorismo.

Os investigadores chamam-lhe frequentemente uma ideologia de baixa densidade (thin ideology). Isto significa duas coisas simples: o populismo quase não tem conteúdos próprios, cola-se facilmente a ideologias mais robustas — esquerda, direita, nacionalismo, conservadorismo, daí a frequência com que os partidos se acusam mutuamente de serem ou terem comportamentos populistas.

No fundo, o populismo funciona mais como uma forma de arrumar o mundo do que como um programa substantivo. Ele cria uma divisão moral simplificada: de um lado, “o povo verdadeiro”, puro, autêntico; do outro, “as elites corruptas”, o “sistema”, as “castas”, “Bruxelas”, “os globalistas”, conforme o contexto.

É por isso que conseguimos ter populismos para todos os gostos: de esquerda, de direita, nacional-conservadores, e até versões tecnocráticas que usam a retórica anti-elite com roupagens mais técnicas.

O núcleo emocional do populismo está sempre ali à vista: a convicção de que só “nós” representamos o povo autêntico — e que todos os outros atores políticos são, no fundo, impostores ao serviço de interesses ocultos. Essa pretensão de representação exclusiva é o que dá ao populismo a sua força moral.

“O populismo é uma ideologia de baixa densidade que divide a sociedade entre um povo puro e homogéneo e uma elite corrupta.”

Cas Mudde

E como esta lógica é flexível, ela adapta-se a quase qualquer ecossistema político. Daí surgirem várias espécies de uma mesma floresta:

  • populismo de esquerda, centrado em elites económicas ou políticas;
  • populismo de direita, mais focado em elites culturais ou “globalistas”;
  • populismo nacional-conservador, que mistura anti-elitismo com defesa da identidade nacional;
  • e até versões tecnocráticas, quando alguém se coloca como a voz “racional” contra uma elite política incompetente.

No fundo, o molde é sempre o mesmo — muda é o conteúdo.

Um partido conservador pode agir como partido de protesto utilizando comunicação populista?

“O populismo prospera em momentos de crise, quando a promessa de dar voz ao ‘povo comum’ ganha força emocional.”
Margaret Canovan

Claro que sim. Não há contradição nenhuma.

Um partido pode continuar firmemente conservador no conteúdo — defesa da família, da ordem, da autoridade, algum ceticismo perante mudanças rápidas e, ao mesmo tempo, adotar uma linguagem típica de protesto populista.

Como exemplos? Com aquelas narrativas emblemáticas: “nós, o povo normal, contra as elites progressistas”; “os de cima traíram a nação e a tradição”; “os imigrantes levam o que é vosso porque as elites deixaram”.

Aqui, o que muda não é a ideologia de fundo, mas o estilo de comunicação. O partido continua conservador no programa, mas funciona como partido de protesto e fala num registo populista que divide o mundo entre povo virtuoso e elites adversárias.

Neste tipo de casos, a arquitetura é simples de mapear, mas vale a pena abrir um pouco cada camada para perceber como funcionam juntas.

Ideologicamente, o partido continua conservador.

Ou seja, mantém o mesmo conjunto de valores: defesa da família, importância da ordem social, respeito pela autoridade, prudência face a mudanças rápidas, valorização da tradição e da identidade nacional. Nada disso muda. O núcleo doutrinário permanece intacto — é o esqueleto que dá forma ao que o partido defende, independentemente do momento político

Funcionalmente, porém, comporta-se como um partido de protesto.

Isto significa que passa a posicionar-se como “contra” algo: contra o sistema, contra o rumo do país, contra elites políticas que considera desligadas do eleitorado. Começa a dramatizar falhas institucionais, a denunciar omissões e a construir uma postura de resistência.

Mesmo mantendo a ideologia conservadora, a prática política desloca-se para o papel de quem agita, denuncia e desafia a ordem estabelecida.

Estilisticamente, fala como um movimento populista.
Aqui entra o vocabulário específico: a divisão simples entre “o povo” (decente, injustiçado, ignorado) e “as elites” (corruptas, distantes, decadentes). Junta-se o tom de vitimização — “estão a tirar-vos tudo” — e o dramatismo quase apocalíptico, que pinta o futuro como um precipício caso nada seja feito.

Este estilo não altera o conteúdo conservador, mas altera a forma de o comunicar”.

“O cerne do populismo não é apenas a crítica às elites, mas a pretensão de que só os populistas representam verdadeiramente o povo.”

Jan-Werner Müller

Bem Haja

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Nota do autor:

Este texto não tem pretensões académicas. É uma reflexão pessoal sobre temas que me interessam enquanto cidadão e observador do nosso tempo.

Este texto teve a colaboração de IA

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