O retorno do político V

É o Populismo uma ideologia de extrema-direita? Semelhanças / diferenças (3 exemplos)

Não. Pode assumir forma de extrema-direita, mas não é sinónimo de extrema-direita.

“O populismo não é uma ideologia: é a forma de construir o político através da ideia de povo.” Ernesto Laclau

Muita gente associa populismo à extrema-direita, mas isso é mais hábito do que verdade.

O populismo pode vestir várias cores ideológicas — às vezes aparece ligado a movimentos de direita mais nacionalistas, outras vezes surge à esquerda, ou até em formatos mais “anti-sistema” sem rótulo claro.

Portanto, não é sinónimo de extrema-direita, embora possa assumir essa forma.

Semelhanças (quando o populismo é de direita/nacionalista): Quando falamos de populismo que pende para a direita ou para o nacionalismo, aí sim aparecem semelhanças com a extrema-direita. As mais óbvias são três.

“A extrema-direita combina populismo, nativismo e autoritarismo — mas uma coisa não é automaticamente a outra.”
Cas Mudde

Discurso anti-elite e anti-sistema: o discurso anti-elite: aquela ideia de que “o povo” está a ser enganado pelas elites políticas, mediáticas, económicas, Bruxelas, o que for. É um ataque constante ao “sistema”, que aparece como corrupto ou distante da vida real das pessoas.

Apelo à identidade nacional/cultural: o apelo à identidade nacional. Aqui entram as referências à tradição, à cultura, à nação ameaçada por globalistas, por imigração em excesso ou por um multiculturalismo visto como forçado. É um discurso que tenta criar uma sensação de pertença forte — “nós” contra “eles”.

Linguagem simplificadora e moralizada: a linguagem moralizada. Tanto o populismo de direita como a extrema-direita recorrem àquela divisão simplista entre “os de bem” e os “traidores”, “vendidos” ou “corruptos”. É uma forma de reduzir debates complexos a uma história de heróis e vilões, o que facilita ganhar apoio rápido, mas empobrece a discussão pública.

Diferenças (quando se compara populismo vs extrema-direita propriamente dita):

Conteúdo ideológico: apesar das semelhanças, populismo e extrema-direita não são a mesma coisa.

A diferença começa logo no conteúdo ideológico. O populismo é mais “camaleão”: pode ser de esquerda, com discurso contra a austeridade e os grandes grupos económicos; pode ser liberal e anti-burocracia; pode ser nacionalista; pode até misturar ideias contraditórias.

Já a extrema-direita costuma trazer sempre o mesmo pacote: uma visão muito marcada da identidade nacional, quase sempre com um toque étnico ou cultural, uma agenda social rígida e, por vezes, um ar de saudade de regimes mais autoritários.

Relação com a democracia liberal: Outra diferença importante está na relação com a democracia liberal.

Os populistas podem reclamar muito das instituições — tribunais, parlamento, imprensa, UE — mas, no fim do dia, costumam jogar dentro do sistema, mesmo que o critiquem sem descanso.

Já algumas correntes de extrema-direita tratam certos pilares da democracia com desconfiança: direitos das minorias, independência dos juízes, pluralismo político… tudo isso pode ser visto como “obstáculo” à vontade do “povo verdadeiro”.

Alvos principais: também há diferenças nos alvos preferidos.

 O populismo de esquerda costuma apontar as baterias para elites económicas e financeiras, falando de injustiças sociais ou do poder dos grandes interesses.

O populismo de direita — sobretudo quando se aproxima da extrema-direita — concentra-se mais em temas como imigração, minorias, perda de identidade cultural e na ideia de que o país está a “degenerar” por culpa do politicamente correto, da globalização ou de elites desligadas da realidade.

Exemplos de influência de partidos “populistas” em governos na Europa democrática? Consequências?

Alguns exemplos típicos que entram nos debates:

Itália – Governo Conte I (2018–2019) – Um dos casos mais falados quando se discute a influência de partidos populistas na Europa é o primeiro governo de Giuseppe Conte, em Itália, entre 2018 e 2019.

Esse governo juntou duas forças bem diferentes mas ambas anti-sistema à sua maneira: o Movimento 5 Estrelas, que é um populismo bastante híbrido e difícil de encaixar numa caixa ideológica, e a Liga, que representa uma direita nacionalista mais clássica.

O resultado foi um governo com uma postura muito confrontacional, tanto dentro como fora do país.

Na economia, apostaram em medidas mais gastadoras, o que trouxe logo choques com as regras orçamentais da União Europeia.

Na imigração, endureceram o discurso e as políticas, especialmente com Salvini no Ministério do Interior, e isso tornou-se um dos pontos mais marcantes do período.

E, no plano europeu, o tom subiu bastante: havia uma constante guerra de palavras com Bruxelas, alimentada pela narrativa de que a UE estava a limitar a vontade do povo italiano.

Áustria – ÖVP + FPÖ (2017–2019): Outro caso muito citado é o da Áustria, onde entre 2017 e 2019 o Partido Popular (um partido de centro-direita tradicional) governou em coligação com o FPÖ, que representa a direita populista e nacionalista do país.

Esta parceria acabou por puxar a política austríaca um pouco mais para a direita, sobretudo em temas ligados à imigração e ao asilo.

As regras ficaram mais duras e o discurso político normalizou várias ideias que antes eram vistas como típicas da direita radical.

Apesar disso, o funcionamento das instituições não entrou em colapso. Pelo contrário: quando rebentou o escândalo do Ibiza affair, que envolveu dirigentes do FPÖ, o governo caiu e foi substituído.

Ou seja, o sistema democrático conseguiu absorver o impacto, corrigir o rumo e seguir em frente — um bom exemplo de como a presença de partidos populistas num governo não implica, automaticamente, um desmantelamento das regras do jogo.

Países nórdicos – Dinamarca, Finlândia, Noruega: nos países nórdicos, como Dinamarca, Finlândia e Noruega, a influência dos partidos populistas e anti-imigração tem acontecido de uma forma mais subtil, mas muito constante.

Não é tanto através de coligações formais, mas sim de governos minoritários que precisam do apoio desses partidos para aprovar leis ou garantir estabilidade. E isso, na prática, dá-lhes bastante poder para condicionar políticas.

O resultado mais evidente tem sido o endurecimento das regras de imigração. Vários governos acabaram por adotar posições mais duras, mesmo partidos tradicionalmente moderados.

 Ao mesmo tempo, reforçou-se muito o discurso da identidade nacional — a ideia de que o Estado social, por exemplo, deve ser mais “protegido” e condicionado, dando prioridade a quem é visto como parte do núcleo tradicional da sociedade.

Apesar desta viragem, não houve crises institucionais nem derivas autoritárias. O que aconteceu foi outra coisa: uma mudança estrutural no consenso político.

Temas que antes eram marginais passaram a estar no centro do debate e a moldar políticas de forma permanente.

No geral, olhando para a Europa democrática, o padrão repete-se.

A entrada ou influência de partidos populistas não tem levado ao “fim da democracia”, como alguns temem.

O que acontece, quase sempre, é uma deslocação do eixo político: mais foco em imigração, soberania nacional e relação com a União Europeia. Soma-se a isto uma polarização verbal mais forte e, por vezes, atritos com instituições europeias. Ou seja, o impacto é real, mas faz-se sentir mais no tom, nas prioridades e no ambiente político do que no desmantelamento das regras democráticas.

“A democracia não é perfeita, mas é o melhor sistema que encontramos para corrigir os nossos próprios erros.”
Karl Popper

Bem Haja

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Nota do autor:

Este texto não tem pretensões académicas. É uma reflexão pessoal sobre temas que me interessam enquanto cidadão e observador do nosso tempo.

Este texto teve a colaboração de IA

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