André Ventura ou António Seguro

As eleições do passado domingo revelaram um resultado de equilíbrio entre as correntes políticas que, em Portugal, habitualmente se designam como de direita e de esquerda.

Não esquecer o designado centro político , espaço a que, quer alguma esquerda e alguma direita, reivindica pertencer.

As eleições para a escolha do Presidente da República são protagonizadas por cidadãos individualmente considerados. Naturalmente, cada candidato tem o seu perfil ideológico e agrega entre os seus apoios partidos políticos que se agrupam em correntes políticas que configuram a chamada direita ou esquerda. É assim que tem sido no passado.

Talvez porque os tempos atuais já não são tão previsíveis como foram no passado, desta vez tivemos 8 partidos políticos diretamente representados por oito candidatos.

Considerando os votos alcançados pelos candidatos apoiados pelos diversos partidos verificamos que:

* Gouveia e Melo, pela não filiação em qualquer partido, não é, para este efeito, considerado na comparação entre candidatos de esquerda e de direita.

O resultado desta eleição, designada como de primeira volta, com nenhum candidato a conseguir um resultado de 50% ou mais votos permitiu a cada partido atualizar a sua contabilidade de votos. Permitiu, também, decidir quais os dois candidatos que vão a votos para uma segunda volta definitiva.

As oito candidaturas antes apresentadas, com os seus resultados eleitorais, também nos dizem qual o posicionamento do ‘centrão’ democrático liberal face ao radicalismo democrático:

Estão nomeados para serem eleitos os candidatos António Seguro e André Ventura. Um representante do centrão socialista: Seguro e um representante do radicalismo democrático: Ventura. São dois cidadãos democráticos com corriculum conhecido, por diversas vezes sufragados em eleições, ex. e dirigentes de partidos democráticos.

André Ventura

André Ventura parte para esta segunda volta suportado num eleitorado que se revelou leal. Tem, também, pela frente a missão de conquistar todo um eleitorado que não sendo, ainda, leal, está disponível para votar em si. Esta vai ser a difícil tarefa que tem pela frente nas próximas 3 semanas.

André Ventura apareceu para a visibilidade política há cerca de 6 anos, tem mantido uma coerência de ideias, liderando um partido também com cerca de seis anos, com um discurso e uma prática, nas instituições em que tem participado, coerente, incisiva e com crescente aceitação junto de cada vez mais eleitores.

Nos seus primeiros tempos foi acusado dos maiores disparates: de extremismo, de autoritarismo, de populismo perigoso. Houve quem tentasse ilegalizar o partido que criou, quem o quisesse silenciar politicamente e quem o tratasse como um corpo estranho ao sistema democrático.

A tudo resistiu e, paulatinamente, vem somando êxitos eleitorais, passando de proscrito para muitos, a eleito para muitos mais.

Há eleitores que concordam com grande parte das críticas que André Ventura faz ao sistema político, à corrupção instalada, à promiscuidade entre poder político e interesses económicos, mas que, ao mesmo tempo, hesitam em assumir esse voto devido ao ambiente de hostilidade permanente que o envolve.

Não obstante, esses eleitores sabem que não estão a votar contra a democracia, mas a votar contra um modo de exercício do poder que consideram esgotado.

António Seguro

António Seguro, que está no terreno oposto, é um homem da política desde a sua juventude e com larga experiência.

Seguro representa e propõe-se ser o rosto não só do socialismo democrático, mas também de uma continuidade política que vem desde o pós-25 de Abril. É o candidato da situação, no sentido em que encarna o modelo de governação que tem dirigido Portugal ao longo das últimas décadas.

António Seguro parte para esta segunda volta suportado num eleitorado maioritariamente socialista, com a necessidade de conquistar eleitores fora do seu espaço político natural: o socialismo democrático, o comunismo e o socialismo radical. O que o vai obrigar a se virar para, com cantos de sereia, o eleitorado não socialista.

Seguro conta com uma imprensa recetiva, com um número apreciável de elites instaladas no sistema que governa Portugal desde tempos remotos e com um ‘centrão’ que se apressa a juntar vontades.

A escolha dos eleitores

Estes dois candidatos, por vontade dos eleitores, representam globalmente duas formas distintas de olhar para o país e para o exercício do poder.

Há eleitores que votam por afinidade ideológica clara. Há outros que votam por rejeição de uma das opções. E há, ainda, aqueles que votam por avaliação concreta das circunstâncias, conscientes das consequências diretas do seu voto e também dos efeitos colaterais que sempre acontecem.

Este último grupo é particularmente relevante. São eleitores atentos, críticos e, muitas vezes, desconfiados de discursos fáceis. Sabem que qualquer decisão terá impactos e que nenhuma escolha é isenta de riscos.

O essencial da disputa

André Ventura representa, já se pode afirmar, uma direita que não tem medo de denunciar o que considera serem os vícios do sistema, incluindo os casos de corrupção registados ao longo de muitos anos de uso do poder.

Pode também afirmar-se que pretende representar uma rutura com o ‘centrão’ político dominante, assumindo que o país precisa de uma mudança profunda de rumo.

António Seguro, pelo contrário, representa a continuidade desse ‘centrão’, acreditando que os problemas do país se resolvem com ajustes graduais e manutenção do quadro institucional existente.

Seguro e Ventura são tão democratas como os mais exemplares dos democratas. Ambos aceitam as regras do jogo democrático e ambos se propõem governar dentro dessas regras.

Deste modo, não é o regime que está em disputa, mas sim um modo de o dirigir. A democracia continuará no dia seguinte às eleições e a vida seguirá, para todos, com as suas rotinas habituais.

Bem hajam.

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