O Retorno do Político na Europa VI

Os riscos anunciados pela esquerda e o ‘centrão’ sobre partidos populistas são inexistentes face às experiências atuais?

Acusações com base em previsões podem ser válidas?

 “Tal como é usado hoje, ‘populismo’ é um termo de abuso aplicado por pensadores do establishment a pessoas cujas vidas não se deram ao trabalho de compreender.”

John Gray

Quando se fala dos avisos vindos da esquerda ou do ‘centrão’ sobre partidos classificados como “xenófobos”, “racistas” ou “iliberais”, não dá para tratar tudo como histeria política. Em vários casos, há mesmo riscos reais documentados, e não simples futurologia partidária.

Quando certos partidos chegam ao poder e começam a: pressionar ou intimidar tribunais, trocando magistrados, limitando autonomia ou criando mecanismos de “disciplina” política; interferir diretamente na comunicação social, seja através de controlo estatal, seja criando ambientes de intimidação sobre imprensa privada; alterar regras eleitorais para garantir vantagem estrutural futura ou de forma organizada e não acidental.

Então estamos perante comportamentos observáveis, registados e analisados internacionalmente. Nestes casos, os alertas não são alarmismo; são constatação de padrões.

Ou seja: existe um núcleo duro de riscos que não são previsões dramáticas, mas práticas verificáveis em países onde certas famílias políticas, sobretudo de tendência nacional-populista ou antiliberal, já governaram. E este histórico torna impossível dizer que todos os avisos são inventados ou exagerados. Há precedentes concretos e mensuráveis.

Há também exagero retórico

“O estilo paranoico da política começa quando a disputa política deixa de ser vista como competição e passa a ser tratada como uma guerra pela sobrevivência.”
Richard Hofstadter

Não obstante, ao mesmo tempo, não se pode ignorar que existe também exagero retórico no debate político.

Hoje em dia, basta um partido levantar dúvidas sobre imigração, criticar certas políticas de género ou discordar da linha dominante da União Europeia para imediatamente aparecer alguém a colar-lhe o rótulo de “fascista”, “racista” ou “extremista”.
E este reflexo automático tem um efeito perverso: banaliza os rótulos.

Quando tudo é “fascismo”, nada o é.

E, pior, torna mais difícil perceber quais os casos que realmente merecem atenção séria.

Por outro lado, isso não significa que todas as previsões são fantasiosas. Previsões podem ser legítimas, desde que tenham base real.

Faz sentido alguém dizer: tendo em conta o programa A e o histórico de declarações B é plausível que, se chegarem ao governo, tentem fazer Z.

Em democracias liberais, como as que temos na Europa, é frequente, na retórica política, os partidos entre si se acusarem de previsões fantasiosas, mesmo populistas. Sejam os partidos de esquerda, do ‘centrão’ ou os mais radicais de ambos os extremos.

Isto é análise política normal: olhar para o que um partido promete, para o que já disse, para a forma como partidos semelhantes agiram noutros países e, a partir daí, antecipar consequências prováveis. É totalmente diferente de entrar no dramatismo do “se estes ganham, é o regresso do Fascismo”, que raramente tem fundamento e serve mais para mobilizar medo do que para informar.

No fim do dia, não existe resposta simples: não é verdade que os riscos são inexistentes, mas também não é verdade que todos os avisos são prova irrefutável de que está para chegar um autoritarismo iminente.
A abordagem intelectualmente honesta é sempre caso a caso: olhar para o programa, para o que fizeram partidos semelhantes noutros países, avaliar até que ponto respeitam as regras democráticas e observar como se comportam depois de ter poder real nas mãos.

Podem/devem partidos de cariz conservador utilizar estratégias populistas de direita para a mobilização de eleitores?

Quando se discute a ideia de usar populismo como ferramenta de mobilização para reforçar ou relançar uma agenda conservadora, a pergunta central é: o que acontece a uma tradição conservadora quando ela adota um estilo populista como veículo?

Historicamente, correntes conservadoras têm recorrido a elementos populistas para ganhar tração política. Não é uma novidade do século XXI. O que muda é a intensidade e a centralidade dessa estratégia. Entre os ingredientes mais comuns estão:

  • Um discurso anti-elite cultural, centrado na crítica aos “progressistas das universidades”, aos “media enviesados” ou às “elites cosmopolitas” que seriam supostamente desligadas do país real;
  • A defesa do povo normal, apresentado como vítima de engenharias sociais, burocracias ideológicas ou experimentações que ameaçam costumes e estabilidade;
  • E, claro, os apelos à nação, tradição, autoridade e segurança, que funcionam como gatilhos identitários fortes e geram um sentido de comunidade política contra um “outro” percebido como corrosivo.

Isto tudo forma um pacote retórico eficaz: simples, emocional e mobilizador.

Para correntes conservadoras que se sentem marginalizadas culturalmente, o populismo oferece um megafone: transforma frustração difusa em narrativa política coerente.

Adotar um estilo populista pode dar ganhos rápidos a forças conservadoras: aumenta a mobilização, cria identidade coletiva forte e liga emocionalmente a liderança ao eleitorado. É um atalho comunicacional poderoso.
Mas esse atalho vem com custos que aparecem logo depois — e alguns são difíceis de reverter.

Radicalização do eleitorado
Quando o conservadorismo entra em “modo populista”, o debate passa a girar em torno de guerras culturais permanentes. O eleitorado acostuma-se ao tom de confronto, às mensagens simplificadas, às explicações de nós contra eles. E depois… desligar isso é quase impossível.

Se o partido tenta voltar ao tom prudente e institucional, arrisca-se a ser acusado pelos seus próprios seguidores de ter “traído a causa”.

Pressão sobre instituições
O populismo trabalha muito com a ideia de que nós representamos o povo verdadeiro, e que quem discorda está contra o país.
Esse enquadramento, quando entra no campo conservador, costuma gerar tensões com tribunais, parlamentos, órgãos independentes, imprensa — tudo aquilo que, para o conservadorismo clássico, deveria funcionar como travões prudenciais.

Ao deslegitimar qualquer oposição como anti-povo, abre-se a porta a choques institucionais sérios.

Erosão do conservadorismo tradicional
O ponto talvez mais profundo: o populismo mina os próprios valores do conservadorismo histórico.
Aquilo que sempre foi marca do conservadorismo: prudência, gradualismo, respeito pelas instituições, ceticismo em relação a mudanças bruscas, tende a ser engolido por uma lógica de urgência, combate e simplificação.

O estilo substitui a substância. A tradição conservadora, em vez de orientar o populismo, acaba muitas vezes transformada por ele.

“O populismo não tem um significado claro, mas é usado pelos liberais para descrever a reação política à disrupção social que as suas próprias políticas criaram.”

John Gray

Bem Haja

Autores citados:

Nota do autor:

Este texto não tem pretensões académicas. É uma reflexão pessoal sobre temas que me interessam enquanto cidadão e observador do nosso tempo.

Este texto teve a colaboração de IA.

O retorno do político V

É o Populismo uma ideologia de extrema-direita? Semelhanças / diferenças (3 exemplos)

Não. Pode assumir forma de extrema-direita, mas não é sinónimo de extrema-direita.

“O populismo não é uma ideologia: é a forma de construir o político através da ideia de povo.” Ernesto Laclau

Muita gente associa populismo à extrema-direita, mas isso é mais hábito do que verdade.

O populismo pode vestir várias cores ideológicas — às vezes aparece ligado a movimentos de direita mais nacionalistas, outras vezes surge à esquerda, ou até em formatos mais “anti-sistema” sem rótulo claro.

Portanto, não é sinónimo de extrema-direita, embora possa assumir essa forma.

Semelhanças (quando o populismo é de direita/nacionalista): Quando falamos de populismo que pende para a direita ou para o nacionalismo, aí sim aparecem semelhanças com a extrema-direita. As mais óbvias são três.

“A extrema-direita combina populismo, nativismo e autoritarismo — mas uma coisa não é automaticamente a outra.”
Cas Mudde

Discurso anti-elite e anti-sistema: o discurso anti-elite: aquela ideia de que “o povo” está a ser enganado pelas elites políticas, mediáticas, económicas, Bruxelas, o que for. É um ataque constante ao “sistema”, que aparece como corrupto ou distante da vida real das pessoas.

Apelo à identidade nacional/cultural: o apelo à identidade nacional. Aqui entram as referências à tradição, à cultura, à nação ameaçada por globalistas, por imigração em excesso ou por um multiculturalismo visto como forçado. É um discurso que tenta criar uma sensação de pertença forte — “nós” contra “eles”.

Linguagem simplificadora e moralizada: a linguagem moralizada. Tanto o populismo de direita como a extrema-direita recorrem àquela divisão simplista entre “os de bem” e os “traidores”, “vendidos” ou “corruptos”. É uma forma de reduzir debates complexos a uma história de heróis e vilões, o que facilita ganhar apoio rápido, mas empobrece a discussão pública.

Diferenças (quando se compara populismo vs extrema-direita propriamente dita):

Conteúdo ideológico: apesar das semelhanças, populismo e extrema-direita não são a mesma coisa.

A diferença começa logo no conteúdo ideológico. O populismo é mais “camaleão”: pode ser de esquerda, com discurso contra a austeridade e os grandes grupos económicos; pode ser liberal e anti-burocracia; pode ser nacionalista; pode até misturar ideias contraditórias.

Já a extrema-direita costuma trazer sempre o mesmo pacote: uma visão muito marcada da identidade nacional, quase sempre com um toque étnico ou cultural, uma agenda social rígida e, por vezes, um ar de saudade de regimes mais autoritários.

Relação com a democracia liberal: Outra diferença importante está na relação com a democracia liberal.

Os populistas podem reclamar muito das instituições — tribunais, parlamento, imprensa, UE — mas, no fim do dia, costumam jogar dentro do sistema, mesmo que o critiquem sem descanso.

Já algumas correntes de extrema-direita tratam certos pilares da democracia com desconfiança: direitos das minorias, independência dos juízes, pluralismo político… tudo isso pode ser visto como “obstáculo” à vontade do “povo verdadeiro”.

Alvos principais: também há diferenças nos alvos preferidos.

 O populismo de esquerda costuma apontar as baterias para elites económicas e financeiras, falando de injustiças sociais ou do poder dos grandes interesses.

O populismo de direita — sobretudo quando se aproxima da extrema-direita — concentra-se mais em temas como imigração, minorias, perda de identidade cultural e na ideia de que o país está a “degenerar” por culpa do politicamente correto, da globalização ou de elites desligadas da realidade.

Exemplos de influência de partidos “populistas” em governos na Europa democrática? Consequências?

Alguns exemplos típicos que entram nos debates:

Itália – Governo Conte I (2018–2019) – Um dos casos mais falados quando se discute a influência de partidos populistas na Europa é o primeiro governo de Giuseppe Conte, em Itália, entre 2018 e 2019.

Esse governo juntou duas forças bem diferentes mas ambas anti-sistema à sua maneira: o Movimento 5 Estrelas, que é um populismo bastante híbrido e difícil de encaixar numa caixa ideológica, e a Liga, que representa uma direita nacionalista mais clássica.

O resultado foi um governo com uma postura muito confrontacional, tanto dentro como fora do país.

Na economia, apostaram em medidas mais gastadoras, o que trouxe logo choques com as regras orçamentais da União Europeia.

Na imigração, endureceram o discurso e as políticas, especialmente com Salvini no Ministério do Interior, e isso tornou-se um dos pontos mais marcantes do período.

E, no plano europeu, o tom subiu bastante: havia uma constante guerra de palavras com Bruxelas, alimentada pela narrativa de que a UE estava a limitar a vontade do povo italiano.

Áustria – ÖVP + FPÖ (2017–2019): Outro caso muito citado é o da Áustria, onde entre 2017 e 2019 o Partido Popular (um partido de centro-direita tradicional) governou em coligação com o FPÖ, que representa a direita populista e nacionalista do país.

Esta parceria acabou por puxar a política austríaca um pouco mais para a direita, sobretudo em temas ligados à imigração e ao asilo.

As regras ficaram mais duras e o discurso político normalizou várias ideias que antes eram vistas como típicas da direita radical.

Apesar disso, o funcionamento das instituições não entrou em colapso. Pelo contrário: quando rebentou o escândalo do Ibiza affair, que envolveu dirigentes do FPÖ, o governo caiu e foi substituído.

Ou seja, o sistema democrático conseguiu absorver o impacto, corrigir o rumo e seguir em frente — um bom exemplo de como a presença de partidos populistas num governo não implica, automaticamente, um desmantelamento das regras do jogo.

Países nórdicos – Dinamarca, Finlândia, Noruega: nos países nórdicos, como Dinamarca, Finlândia e Noruega, a influência dos partidos populistas e anti-imigração tem acontecido de uma forma mais subtil, mas muito constante.

Não é tanto através de coligações formais, mas sim de governos minoritários que precisam do apoio desses partidos para aprovar leis ou garantir estabilidade. E isso, na prática, dá-lhes bastante poder para condicionar políticas.

O resultado mais evidente tem sido o endurecimento das regras de imigração. Vários governos acabaram por adotar posições mais duras, mesmo partidos tradicionalmente moderados.

 Ao mesmo tempo, reforçou-se muito o discurso da identidade nacional — a ideia de que o Estado social, por exemplo, deve ser mais “protegido” e condicionado, dando prioridade a quem é visto como parte do núcleo tradicional da sociedade.

Apesar desta viragem, não houve crises institucionais nem derivas autoritárias. O que aconteceu foi outra coisa: uma mudança estrutural no consenso político.

Temas que antes eram marginais passaram a estar no centro do debate e a moldar políticas de forma permanente.

No geral, olhando para a Europa democrática, o padrão repete-se.

A entrada ou influência de partidos populistas não tem levado ao “fim da democracia”, como alguns temem.

O que acontece, quase sempre, é uma deslocação do eixo político: mais foco em imigração, soberania nacional e relação com a União Europeia. Soma-se a isto uma polarização verbal mais forte e, por vezes, atritos com instituições europeias. Ou seja, o impacto é real, mas faz-se sentir mais no tom, nas prioridades e no ambiente político do que no desmantelamento das regras democráticas.

“A democracia não é perfeita, mas é o melhor sistema que encontramos para corrigir os nossos próprios erros.”
Karl Popper

Bem Haja

Autores citados:

Nota do autor:

Este texto não tem pretensões académicas. É uma reflexão pessoal sobre temas que me interessam enquanto cidadão e observador do nosso tempo.

Este texto teve a colaboração de IA

O retorno do político na Europa IV

O Populismo é uma ideologia ou um processo?

“O populismo não é um conteúdo ideológico, é uma lógica política de construção do povo enquanto sujeito.”
Ernesto Laclau

Na maior parte da literatura académica recente, a resposta tende a cair para o mesmo lado: o populismo não é bem uma ideologia fechada, é mais um estilo ou uma lógica política. Não tem densidade doutrinária suficiente para competir com pacotes ideológicos clássicos — socialismo, liberalismo, conservadorismo.

Os investigadores chamam-lhe frequentemente uma ideologia de baixa densidade (thin ideology). Isto significa duas coisas simples: o populismo quase não tem conteúdos próprios, cola-se facilmente a ideologias mais robustas — esquerda, direita, nacionalismo, conservadorismo, daí a frequência com que os partidos se acusam mutuamente de serem ou terem comportamentos populistas.

No fundo, o populismo funciona mais como uma forma de arrumar o mundo do que como um programa substantivo. Ele cria uma divisão moral simplificada: de um lado, “o povo verdadeiro”, puro, autêntico; do outro, “as elites corruptas”, o “sistema”, as “castas”, “Bruxelas”, “os globalistas”, conforme o contexto.

É por isso que conseguimos ter populismos para todos os gostos: de esquerda, de direita, nacional-conservadores, e até versões tecnocráticas que usam a retórica anti-elite com roupagens mais técnicas.

O núcleo emocional do populismo está sempre ali à vista: a convicção de que só “nós” representamos o povo autêntico — e que todos os outros atores políticos são, no fundo, impostores ao serviço de interesses ocultos. Essa pretensão de representação exclusiva é o que dá ao populismo a sua força moral.

“O populismo é uma ideologia de baixa densidade que divide a sociedade entre um povo puro e homogéneo e uma elite corrupta.”

Cas Mudde

E como esta lógica é flexível, ela adapta-se a quase qualquer ecossistema político. Daí surgirem várias espécies de uma mesma floresta:

  • populismo de esquerda, centrado em elites económicas ou políticas;
  • populismo de direita, mais focado em elites culturais ou “globalistas”;
  • populismo nacional-conservador, que mistura anti-elitismo com defesa da identidade nacional;
  • e até versões tecnocráticas, quando alguém se coloca como a voz “racional” contra uma elite política incompetente.

No fundo, o molde é sempre o mesmo — muda é o conteúdo.

Um partido conservador pode agir como partido de protesto utilizando comunicação populista?

“O populismo prospera em momentos de crise, quando a promessa de dar voz ao ‘povo comum’ ganha força emocional.”
Margaret Canovan

Claro que sim. Não há contradição nenhuma.

Um partido pode continuar firmemente conservador no conteúdo — defesa da família, da ordem, da autoridade, algum ceticismo perante mudanças rápidas e, ao mesmo tempo, adotar uma linguagem típica de protesto populista.

Como exemplos? Com aquelas narrativas emblemáticas: “nós, o povo normal, contra as elites progressistas”; “os de cima traíram a nação e a tradição”; “os imigrantes levam o que é vosso porque as elites deixaram”.

Aqui, o que muda não é a ideologia de fundo, mas o estilo de comunicação. O partido continua conservador no programa, mas funciona como partido de protesto e fala num registo populista que divide o mundo entre povo virtuoso e elites adversárias.

Neste tipo de casos, a arquitetura é simples de mapear, mas vale a pena abrir um pouco cada camada para perceber como funcionam juntas.

Ideologicamente, o partido continua conservador.

Ou seja, mantém o mesmo conjunto de valores: defesa da família, importância da ordem social, respeito pela autoridade, prudência face a mudanças rápidas, valorização da tradição e da identidade nacional. Nada disso muda. O núcleo doutrinário permanece intacto — é o esqueleto que dá forma ao que o partido defende, independentemente do momento político

Funcionalmente, porém, comporta-se como um partido de protesto.

Isto significa que passa a posicionar-se como “contra” algo: contra o sistema, contra o rumo do país, contra elites políticas que considera desligadas do eleitorado. Começa a dramatizar falhas institucionais, a denunciar omissões e a construir uma postura de resistência.

Mesmo mantendo a ideologia conservadora, a prática política desloca-se para o papel de quem agita, denuncia e desafia a ordem estabelecida.

Estilisticamente, fala como um movimento populista.
Aqui entra o vocabulário específico: a divisão simples entre “o povo” (decente, injustiçado, ignorado) e “as elites” (corruptas, distantes, decadentes). Junta-se o tom de vitimização — “estão a tirar-vos tudo” — e o dramatismo quase apocalíptico, que pinta o futuro como um precipício caso nada seja feito.

Este estilo não altera o conteúdo conservador, mas altera a forma de o comunicar”.

“O cerne do populismo não é apenas a crítica às elites, mas a pretensão de que só os populistas representam verdadeiramente o povo.”

Jan-Werner Müller

Bem Haja

Autores citados:

Nota do autor:

Este texto não tem pretensões académicas. É uma reflexão pessoal sobre temas que me interessam enquanto cidadão e observador do nosso tempo.

Este texto teve a colaboração de IA

O Retorno do Político na Europa II

O populismo é uma mistura de diagnóstico correto com soluções imperfeitas

Os conservadores sérios reconhecem o seguinte:

Diagnóstico correto:

  • Afastamento das elites políticas.
  • Desprezo pelo mundo rural.
  • Erosão da classe média.
  • Perda de segurança física e cultural.
  • Burocracia drenando soberania.

Soluções nem sempre maduras, podem ser reativas:

  • Fecham fronteiras sem plano.
  • Simplificam problemas complexos.
  • Têm discursos emocionais demais.

O populismo acaba por ser uma mistura curiosa: acerta muitas vezes no diagnóstico, mas tropeça quando chega à parte das soluções. E os conservadores mais sérios reconhecem isso sem grandes dramas.

Eles veem que há problemas reais e profundos por trás da revolta popular: a distância crescente entre as elites políticas e o cidadão comum, o desprezo constante pelo mundo rural, a classe média a perder fôlego ano após ano, a sensação de insegurança — tanto física como cultural — e uma burocracia pesada que parece engolir pedaços da soberania nacional.

O problema é que, apesar de acertarem no que está mal, as respostas populistas nem sempre vêm bem cozinhadas. Muitas vezes são reativas, feitas no calor do momento.

Fecham fronteiras sem um plano de longo prazo, tratam questões complexas como se fossem puzzles de duas peças e exageram nos discursos carregados de emoção, como quem tenta compensar a falta de estrutura com volume.

No fundo, o populismo não é a doença em si — é apenas o sintoma de algo mais fundo que se andou a ignorar durante demasiado tempo. É como uma febre política: aparece porque há qualquer coisa no organismo social que não está a funcionar bem.

Só que, em vez de tentar perceber o que realmente está a causar essa febre, a narrativa anti-populista da esquerda e do centrão prefere vestir uma postura moralista. Em vez de analisar, apontam o dedo. Em vez de tentar compreender o fenómeno, catalogam-no como defeito de caráter.

“O populismo não é um projeto político: é o retorno do povo ao espaço público, depois de ter sido excluído.”

Pierre Manent

A narrativa anti-populista da esquerda e do centrão é moralista, não analítica

A direita intelectual costuma resumir bem esta atitude: sempre que aparece um movimento populista, a reação automática do centrão e da esquerda é diabolizar, moralizar, tratar como patologia, ridicularizar e, se possível, censurar. Fazem tudo — menos tentar perceber de onde vem o descontentamento que alimenta esses movimentos.

É sempre tudo, menos tentar compreender. A esquerda prefere atirar rótulos em vez de fazer perguntas. Assim, os populistas viram automaticamente “fascistas”, “xenófobos” ou “antidemocráticos”, como se essas etiquetas resolvessem alguma coisa ou explicassem a origem do mal-estar que os faz crescer.

A direita séria costuma responder de forma mais ponderada: o populismo não é uma rejeição da democracia — é quase o contrário disso. É uma espécie de excesso de democracia direta a reagir contra um excesso de tecnocracia. É o povo a tentar recuperar espaço num sistema que passou demasiado tempo entregue a especialistas, gabinetes e instituições que ninguém elegeu.

“O que irrita as elites não é o populismo, é o povo”

Ryszard Legutko

O futuro da direita não é populista nem centrista — é conservador soberanista moderado

O caminho da direita para o futuro não passa nem pelo populismo inflamado nem pelo regresso conformado ao centrão.

A alternativa que vai ganhando força entre os pensadores mais sérios é uma direita conservadora e soberanista, mas moderada — firme nos princípios, sem cair em gestos impulsivos.

Esses autores insistem que a solução não está em voltar ao centrão, que já provou ser incapaz de responder ao desgaste social e cultural dos últimos anos. Mas também não está em ficar para sempre preso a um populismo reativo, que vive do curto prazo e do protesto permanente. A ideia é outra: construir um rumo estável, realista e capaz de proteger a comunidade sem perder a cabeça.

Um conservadorismo com soberania, mas sem isolamento

“A nação é a forma política através da qual um povo continua livre”

Pierre Manent

A ideia aqui é devolver ao país a capacidade de decidir o seu destino sem se fechar numa bolha.
Durante décadas a constante na narrativa foi de que só havia duas opções: ou se entregava o poder a instâncias supranacionais, ou se fechava numa fortaleza contra o mundo.
Os conservadores modernos rejeitam essa falsa escolha.

A soberania que defendem é prática, não teatral, passa por:

  • ter fronteiras controladas, mas manter fluxos económicos e diplomáticos abertos;
  • participar em alianças, mas sem aceitar que burocracias externas ditem leis internas;
  • cooperar, mas sem servilismo;
  • negociar, não ajoelhar.

É a diferença entre um país que age e um país que reage. Entre ser parceiro e ser satélite.Não se trata de virar costas ao mundo, mas de voltar a estar de pé dentro dele.
É uma soberania que não quebra pontes, apenas exige que as pontes sejam de dois sentidos.

“Sem capacidade de decidir por si, uma democracia deixa de o ser”

Giovanni Sartori

Identitário, mas não xenófobo

“Amar a casa não significa odiar o vizinho”

Roger Scruton

Este ponto é dos mais mal-entendidos.
Falar de identidade virou quase um tabu, como se qualquer valorização da cultura nacional fosse automaticamente um ataque a quem é diferente. Os conservadores sérios rejeitam essa chantagem moral.Para eles, identidade é memória, continuidade e pertença, não hostilidade.
É reconhecer que um país não é apenas um espaço geográfico; é um modo de viver que se transmitiu ao longo de gerações.E proteger isso não implica desprezar quem vem de fora.
Implica apenas ter regras claras:

  • acolher quem quer contribuir,
  • integrar quem chega,
  • recusar guetos e paralelismos culturais,
  • exigir respeito aos costumes e leis da casa.
  • É a ideia simples e justa: quem entra é bem-vindo, mas entra numa casa com história — não num centro comercial vazio.

A identidade aqui não é grito, é raízes. Não é medo do outro, é amor ao que é nosso.
É um “sim” tranquilo à cultura própria, não um “não” agressivo ao estrangeiro.

“Uma cultura confiante não precisa excluir: basta saber quem é”

Rémi Brague

Tradicionalista, mas não imobilista

“Um Estado sem meios de mudar carece de meios para se conservar.”

Edmund Burke

Ser tradicionalista não é viver agarrado ao passado como quem abraça uma âncora.
É reconhecer que as tradições existem porque funcionaram, porque deram estabilidade e sentido à vida das pessoas.
Mas isso não significa que a sociedade tenha de ficar congelada numa fotografia antiga.

O tradicionalista moderno vê a tradição como um fio contínuo, não como um museu fechado. É herança que se transmite, não peça de arqueologia intocável.

A lógica é esta:

  • preservar o que sustenta a vida em comum,
  • atualizar o que precisa de acompanhamento,
  • adaptar sem destruir,
  • reformar sem romper.

É a ideia de continuidade viva: a tradição não é uma jaula, é um tronco — sólido, mas com ramos que crescem.

Enquanto o progressismo quer reinventar tudo todos os anos, e o reacionarismo quer voltar para um tempo que já não existe, o conservador tradicionalista prefere melhorar o que temos, sem amputar a memória que nos trouxe até aqui.

Não é imobilismo, é prudência com sentido histórico.

“A tradição não é um grilhão, é uma conversa contínua entre gerações”

Michael Oakeshott

Pró-comunidade, mas não anti-liberal

“As associações civis são a escola da liberdade”

Alexis de Tocqueville

Os conservadores modernos defendem comunidade não como coletivismo estatal, mas como tecido social vivo: família, vizinhança, associações, voluntariado, instituições locais. É este “pequeno mundo” que dá às pessoas pertença, suporte e responsabilidade mútua.

Mas isto não implica negar a liberdade individual nem o mercado.
Pelo contrário: uma comunidade saudável precisa de gente livre, não de cidadãos tutelados por um Estado gigante.

A visão é simples:

  • a comunidade protege,
  • o indivíduo empreende,
  • o Estado garante regras claras e ninguém engole o espaço do outro.

É uma alternativa tanto ao individualismo radical (“cada um por si”), como ao estatismo sufocante (“o Estado faz tudo por ti”).

A comunidade dá raízes, a liberdade dá asas. E a combinação das duas evita tanto a solidão moderna como a dependência estatal.

O objetivo não é nivelar as pessoas, é conectá-las. É ter um país onde o indivíduo pode prosperar, mas nunca à custa de destruir os laços que tornam uma sociedade humana.

“Sem comunidades fortes, o indivíduo fica entregue ao Estado”

Robert Nisbet

Bem Haja

Autores Citados:

  • Ryszard Legutko

Nota do autor:

Este texto não tem pretensões académicas. É uma reflexão pessoal sobre temas que me interessam enquanto cidadão e observador do nosso tempo.

Este texto teve a colaboração de IA

O retorno do político na Europa I

O que os pensadores de direita conservadora realmente dizem sobre o “abalo populista” na Europa

“O populismo é a resposta de sociedades que sentem que foram administradas, não representadas.”

John Gray

Depois de décadas dominadas por economistas, tecnocratas e gestores, a Europa está a reencontrar a política: no bom e no mau sentido.
As pessoas querem voltar a discutir valores, pertença, fronteiras, deveres, limites.
Isto não é um retrocesso: é a democracia a respirar outra vez.
O perigo não é a política — é a política sem caráter.

O risco real não é a direita nem a esquerda: é a indiferença

Hoje fala-se muito de “ameaças” vindas dos extremos, mas a maior ameaça é sempre a mesma: a apatia cívica.
Quando as pessoas deixam de se interessar, outros, menos interessados no bem comum, ocupam o vazio.
A democracia morre mais depressa por abandono do que por ataque.

A Europa perdeu o consenso moral e isso está a doer

“Uma política que deixa de falar a língua moral do seu povo perde a autoridade para o governar.”
Pierre Manent

Conservadores falam de valores, progressistas falam de direitos, mas já não há um vocabulário comum. O resultado é um diálogo cheio de palavras iguais e significados diferentes.
A Europa precisa de reencontrar uma gramática moral partilhada: não para uniformizar, mas para compreender. Sem isso, tudo é ruído.

O populismo não surge do nada: é uma reação ao vazio moral do centrão

O populismo não brota do nada: ele floresce quando o “centro” político deixa de oferecer sentido, pertença e direção. Quando a política vira pura gestão tecnocrática, higiénica e sem alma. Muita gente sente que o seu mundo está a ser administrado, não representado.

Esse vazio moral e simbólico abre espaço para quem promete devolver voz, identidade e conflito legítimo ao povo. O populismo entra aí: como grito, não como programa.

Não é só raiva, é sinal de que a política deixou de tocar no essencial.

Ideia central da direita séria

O centrão (socialismo + social democracia + liberalismo tecnocrático) criou um regime de gestão, não de sentido.

O centrão juntou várias famílias políticas num consenso confortável: gerir a economia, gerir os serviços, gerir o Estado. Tudo muito estável, muito técnico… mas sem dizer para quê, em nome de quem ou com que visão de futuro.

Socialistas moderados, sociais-democratas e liberais tecnocráticos acabaram por convergir num modelo que funciona bem como máquina administrativa, mas pobre como proposta moral.

Há políticas, mas não há um rumo; há soluções técnicas, mas não há narrativa comum.

E quando a política perde sentido, o eleitor começa a procurá-lo noutro lado — e aí o populismo aparece como reação, não como capricho.

Perdeu ligação com:

  • comunidade,
  • pertença,
  • identidade,
  • fronteira,
  • autoridade,
  • responsabilidade.

O centrão criou desorientação: esquemas económicos incompreensíveis, decisões tomadas em gabinetes distantes e identidades acusadas de “retrógradas”. O centrão produziu um ambiente onde muita gente sente que perdeu o chão.

A combinação de economia opaca, tratada como engenharia para especialistas, com decisões tomadas longe da vida real, tornou a política algo distante e quase irrelevante para o cidadão comum.

Ao mesmo tempo, a moral pública tornou-se líquida, sempre em mutação, sem pontos de referência partilhados. E quem tenta apoiar-se numa identidade mais estável (nacional, cultural, religiosa, familiar) é muitas vezes rotulado de “atrasado”.

O resultado? Desorientação. E essa desorientação não é acidental: é o sintoma de uma política que administra, mas já não guia; regula, mas já não oferece pertença. É nesse vazio que o populismo cresce.

Uma Europa que deixou de falar a língua moral das pessoas comuns

“Quando as elites deixam de acreditar no povo, o povo deixa de acreditar na democracia.”

Ivan Krastev

A Europa institucional passou a falar numa gramática abstrata: direitos sem deveres, diversidade sem comunidade, progresso sem raízes. Tudo em linguagem técnica, jurídica, ou moralmente “neutra”. Só que as pessoas comuns não vivem em abstrações: vivem em vizinhanças, famílias, tradições, hábitos, pertenças.

Quando a política deixa de falar essa língua moral: feita de lealdade, responsabilidade, memória, limite, continuidade cria-se um fosso entre governantes e governados. Os líderes parecem pairar acima da sociedade, enquanto o cidadão fica a sentir que a sua forma de vida é invisível ou até embaraçosa para quem manda.

E quando uma civilização deixa de se reconhecer na voz dos seus dirigentes, alguma coisa mais funda começa a falhar.

O populismo entra a preencher o vazio, não a destruir o sistema

O Populismo não nasce para derrubar o sistema; nasce porque o sistema deixou de comunicar, de representar e de oferecer sentido. Quando o espaço político dominante se torna plano, tecnocrático, moralmente tímido e culturalmente alheado, abre-se um buraco. E a política não tolera vácuo.

O populismo entra aí como força de reaproximação: devolve voz, dramatiza conflitos reais, reintroduz pertença, obriga o sistema a ouvir. Muitas vezes é rude, imperfeito, barulhento, mas é um sinal de que a sociedade ainda quer ser vista e ouvida.

A destruição só aparece quando o próprio sistema insiste em não aprender nada e continua a tratar o mal-estar como “ignorância do povo” em vez de como aviso sério. O impulso original, esse, é de preenchimento, não de ruína.

“O populismo não é um projeto político: é o retorno do povo ao espaço público, depois de ter sido excluído.”

Pierre Manent

Bem Haja

Nota do autor:

Este texto não tem pretensões académicas. É uma reflexão pessoal sobre temas que me interessam enquanto cidadão e observador do nosso tempo.

Este texto teve a colaboração de IA

Conservadorismo e Soberanismo IV

Os valores fundacionais destes dois ismos

Chegados ao fim deste conjunto de textos, fica a pergunta essencial: os valores que sustentam o conservadorismo e o soberanismo são uma ameaça à democracia — ou são, pelo contrário, a sua base esquecida?

Depois de olharmos para as suas manifestações no mundo, para a diversidade europeia e para o modo como a esquerda e a direita os interpretam, torna-se claro que estes dois ismos partilham um mesmo núcleo ético: a defesa do limite, da continuidade e da responsabilidade.

Não são ideias contra a liberdade — são tentativas de lhe dar forma e permanência.

Uma biblioteca histórica — símbolo da continuidade, da tradição e da sabedoria acumulada das gerações

O Conservadorismo — a ordem moral da liberdade

O conservadorismo, entendido no seu sentido mais profundo, não é resistência à mudança, mas recusa do esquecimento.
Assenta em valores que não pertencem a um partido, mas a uma experiência histórica comum:

ValorSentido essencial
TradiçãoA sabedoria acumulada das gerações; a herança que liga passado e futuro.
OrdemA estrutura que permite à liberdade existir sem se autodestruir.
PrudênciaA consciência de que o progresso sem medida é apenas outra forma de caos.
Moralidade objetivaA crença de que existem princípios de bem e de justiça que não dependem da moda.
ContinuidadeA noção de que a civilização é um fio de responsabilidades, não um recomeço permanente.

O conservador acredita que a liberdade precisa de raízes:

  • Sem tradição, a inovação torna-se capricho; sem memória, a justiça torna-se impulso; sem ordem, a democracia torna-se ruído.
  • Conservar, neste sentido, é proteger o que permite mudar com sentido.

Um parlamento nacional — símbolo da autodeterminação democrática e da responsabilidade coletiva

O Soberanismo — a dignidade da autodeterminação

O soberanismo nasce da convicção de que a democracia só existe onde há um povo que decide.
Não é necessariamente nacionalista, mas afirma que a legitimidade política vem de dentro, não de fora.
Os seus valores são os da autonomia responsável:

ValorSentido essencial
AutodeterminaçãoO direito de um povo governar-se e escolher o seu caminho.
IdentidadeO reconhecimento de uma história, cultura e língua que formam uma comunidade.
Responsabilidade nacionalSer soberano não é apenas ter poder — é ter deveres perante o bem comum.
Dignidade coletivaA soberania é uma forma de respeito próprio dos povos livres.
LimiteSaber até onde se pode delegar sem deixar de existir como sujeito político.

O soberanismo é, assim, a tradução política do desejo de continuidade: que a comunidade possa decidir o seu destino sem se dissolver em estruturas impessoais.

Quando se torna extremista, degenera em isolamento; mas quando é equilibrado, é a forma adulta da liberdade coletiva.

O ponto de encontro — limite e responsabilidade

Apesar das diferenças, conservadorismo e soberanismo convergem num mesmo princípio moral: a verdadeira liberdade exige limites e vínculos, e o conservador preocupa-se com os limites morais da ação humana; o soberanista, com os limites políticos da autoridade externa. Ambos rejeitam a ilusão de um mundo sem fronteiras nem memória.

DimensãoConservadorismoSoberanismoValor comum
Fundamento moralTradição e prudênciaIdentidade e deverContinuidade
Dimensão socialComunidade e ordemCoesão e solidariedadeResponsabilidade
Relação com o tempoValoriza o passado como guiaValoriza o presente como decisãoMemória ativa
Risco extremoImobilismo e moralismoIsolacionismo e populismoDesequilíbrio
Virtude centralModeraçãoAutonomiaLiberdade responsável

Estes dois ismos, quando mantêm o equilíbrio, são antídotos contra a amnésia histórica e contra o império da técnica.
Recordam-nos que governar é também conservar, e que conservar é também escolher.

Entre ameaça e necessidade

O que faz destes valores uma possível “ameaça” não é o seu conteúdo, mas a forma como são instrumentalizados.
O conservadorismo torna-se perigoso quando confunde ordem com rigidez, quando transforma a moral em imposição e o passado em dogma.
O soberanismo degenera quando substitui a responsabilidade pela desconfiança, ou a identidade pelo ressentimento.

Mas, nas suas formas maduras, ambos são condições de equilíbrio para a democracia:

  • O conservadorismo dá-lhe alma moral;
  • O soberanismo dá-lhe corpo político.

Sem o primeiro, a democracia perde referências; sem o segundo, perde autonomia.
Ambos juntos, quando temperados pela razão e pela consciência do outro, defendem a liberdade contra os excessos do seu próprio tempo.

Uma fronteira europeia contemporânea — símbolo dos limites que protegem a liberdade e da responsabilidade que sustenta a democracia

Conclusão — herdar, não repetir

Estes dois ismos não pedem regressos nem muralhas.
Pedem enraizamento — a capacidade de recordar o que nos fez ser quem somos, para escolher melhor o que queremos ser.
O conservadorismo lembra-nos que a história é um mestre silencioso; o soberanismo, que a liberdade não se delega.

Num tempo em que a técnica promete tudo e o poder se desloca para longe, talvez conservar e ser soberano seja apenas a forma civilizada de continuar a ser humano.

Não são uma ameaça: são uma advertência.
Uma lembrança de que toda a civilização que esquece as suas raízes perde também o rumo.

Bem Haja

Leituras recomendadas:

• Alasdair MacIntyre — Depois da Virtude

• Yuval Levin — O Grande Debate
• Robert Nisbet — A procura pela Comunidade
• Dani Rodrik — O Paradoxo da Globalização


Nota do autor:

Este texto não tem pretensões académicas. É uma reflexão pessoal sobre temas que me interessam enquanto cidadão e observador do nosso tempo.

Este texto teve a colaboração de IA

Conservadorismo e Soberanismo III

A leitura ideológica destes dois ismos

Na Europa democrática, o confronto entre esquerda e direita não se faz apenas de políticas ou programas.
O que as distingue, cada vez mais, é a visão moral e simbólica do que a sociedade deve conservar — e do que deve poder decidir.
É neste terreno que estes dois ismos, o conservadorismo e o soberanismo, assumem sentidos distintos conforme o olhar ideológico.

Ambos partem da mesma inquietação: a sensação de que a globalização, a burocracia e a tecnologia dissolveram o espaço político onde o cidadão se reconhece.
Mas a resposta é diferente: para a esquerda, a soberania deve proteger as pessoas; para a direita, deve proteger a cultura.

O Parlamento Grego durante o período da crise — símbolo da reivindicação de soberania democrática na Europa do sul

A esquerda e o soberanismo democrático

A esquerda europeia tem uma relação complexa com a ideia de nação.
Durante grande parte do século XX, preferiu o internacionalismo — a solidariedade entre povos, acima das fronteiras.
O nacionalismo era visto como instrumento burguês, um disfarce das desigualdades sociais.

Contudo, nas últimas décadas, e sobretudo após a crise financeira de 2008, algo mudou.
Os partidos e movimentos de esquerda começaram a falar em soberania democrática — o direito de um povo decidir as suas políticas económicas e sociais sem imposições externas.

Na Grécia, o Syriza; em Espanha, o Podemos; em Portugal, parte da esquerda socialista e do Bloco de Esquerda; e em Itália, setores próximos da esquerda pós-comunista — todos resgataram o conceito de autodeterminação popular.
Não para exaltar a nação, mas para restituir ao Estado o poder de proteger os mais fracos.

Para esta esquerda, a soberania é instrumento de justiça social: serve para garantir trabalho, serviços públicos, segurança económica.
O conservadorismo, pelo contrário, é-lhe suspeito — visto como defesa do status quo, das hierarquias e da moral tradicional.
A esquerda europeia conserva, sim, mas a memória das lutas sociais, não as estruturas da tradição.

O Parlamento Húngaro — em vários países da Europa Central, a direita soberanista defende a proteção cultural e institucional como fundamento da comunidade nacional

A direita e o nacionalismo cívico

Na direita, o movimento é o inverso.
O conservadorismo continua a ser a linguagem moral da ordem e da continuidade, e o soberanismo, a linguagem política da independência.
Mas há divisões internas.

A direita liberal e democrata-cristã (como a do pós-guerra) vê no conservadorismo um princípio de equilíbrio: a defesa da moral pública, da família e das instituições, sem rejeitar o pluralismo.
Aceita a integração europeia como meio de estabilidade e de paz.
O seu soberanismo é moderado e cooperativo — defende a autonomia nacional, mas dentro das regras comuns.

Já a nova direita soberanista, que cresce em vários países (França, Itália, Hungria, Polónia, Espanha e Portugal), reivindica um tom mais assertivo.
Denuncia o que considera a erosão cultural e democrática provocada pela globalização e pela centralização em Bruxelas.
Para estes movimentos, ser soberano é reconstruir a comunidade moral e política, recuperar fronteiras, autoridade e pertença.

O seu conservadorismo é identitário, e o seu soberanismo é reivindicativo.
Ambos procuram devolver à nação o papel de sujeito histórico — não apenas uma peça da engrenagem internacional.

O Parlamento Europeu, em Estrasburgo — a Europa procura equilibrar autonomia nacional e integração política

Convergências e divergências

Entre a esquerda e a direita europeias, há mais pontos de contacto do que parece.
Ambas falam em autonomia, ambas criticam o poder distante e tecnocrático, e ambas invocam a soberania como forma de recuperar o controlo do destino coletivo.
Mas divergem no fundamento moral da sua soberania:

DimensãoEsquerda DemocráticaDireita Conservadora
Finalidade da soberaniaProteção social e justiça económicaDefesa da identidade e da cultura
Visão da comunidadeUniversalista e solidáriaNacional e orgânica
Relação com a tradiçãoCrítica ou seletivaValorizadora e moral
Soberanismo dominanteDemocrático e popularPolítico e cultural
Perigo percebidoA opressão internaA dissolução externa

No fundo, ambas tentam salvar o mesmo valor: a liberdade política, mas entendem-na de forma oposta.
Para a esquerda, a liberdade é coletiva e material — depende de igualdade e bem-estar.
Para a direita, é moral e institucional — depende de ordem e pertença.

A Europa entre dois medos

A Europa vive hoje entre dois medos complementares:

  • o medo da rutura social, que anima a esquerda;
  • e o medo da dissolução cultural, que inspira a direita.

Os dois olhares descrevem faces diferentes da mesma ansiedade: a perda de controlo.
Num mundo dominado por forças económicas e tecnológicas globais, estes dois ismos aparecem como tentativas de reenraizar o poder e o sentido — um em nome do povo, o outro em nome da civilização.

O desafio, porém, é que ambos podem resvalar:

  • o soberanismo democrático, se levado ao extremo, pode tornar-se populismo económico;
  • o conservadorismo identitário, se fechado sobre si, pode transformar-se em exclusivismo moral.

A fronteira entre virtude e risco está na moderação — a virtude clássica da política europeia.

Conclusão: o reencontro com a responsabilidade

A leitura ideológica do conservadorismo e do soberanismo mostra que não são monopólio de nenhuma corrente política.
São expressões de uma inquietação mais profunda: a de saber se o ser humano pode continuar a viver livre sem perder raízes.
A esquerda teme a desigualdade; a direita teme o vazio moral.
Ambas temem a perda de sentido.

Talvez por isso, em tempos de fragmentação, estes dois ismos voltam a unir o que o século XX separou: o sentimento de comunidade e a exigência de autogoverno.
A questão não é de partido, mas de responsabilidade civilizacional.
E essa, ainda que com nomes diferentes, é uma causa comum.

Bem Haja.

Leituras recomendadas:

  • Chantal Mouffe —Por um Populismo de Esquerda
  • Thomas FaziRetomando o Estado
  • Pierre ManentA Razão das Nações
  • Ryszard LegutkoO Demónio na Democracia

Nota do autor:

Este texto não tem pretensões académicas. É uma reflexão pessoal sobre temas que me interessam enquanto cidadão e observador do nosso tempo.

Este texto teve a colaboração de IA

Conservadorismo e Soberanismo II

A visão europeia destes dois ismos

Depois de observarmos como o conservadorismo e o soberanismo se manifestam nas diferentes regiões do mundo, é tempo de voltar o olhar para a Europa.
É neste continente que estes dois ismos ganharam forma política moderna — e também onde se tornaram mais ambíguos.
A Europa democrática é, ao mesmo tempo, o berço e o laboratório da conciliação entre identidade e liberdade, memória e modernidade, nação e integração.

Mas, se partilham um mesmo quadro civilizacional, os países europeus interpretam de modos muito diferentes o que significa conservar e o que significa ser soberano.

A Assembleia Nacional, em Paris — símbolo da tradição
republicana e do orgulho cívico francês

França — o orgulho republicano

Na França, o conservadorismo assume uma forma peculiar: é republicano e cívico, não aristocrático.
Desde a Revolução Francesa, a Nação é entendida como o povo soberano, e não como uma linhagem ou tradição religiosa.
O conservador francês conserva a República (os valores de liberté, égalité, fraternité)— e desconfia tanto da tirania como da fragmentação.
O soberanismo, por sua vez, tem raízes no gaullismo, na defesa de uma França independente das superpotências e das instituições supranacionais.
É um soberanismo orgulhoso, mas não isolacionista: pretende autonomia dentro da cooperação, uma França que decide, mas participa.

Portão de Brandemburgo em Berlim, iluminado à noite, representando a história e a cultura alemã.
A Porta de Brandemburgo — marco histórico da
prudência alemã e da reconstrução democrática do pós-guerra

Alemanha — a contenção da memória

O caso alemão é quase o inverso.
A tragédia do século XX deixou uma marca profunda: o nacionalismo passou a ser visto com suspeita moral.
O conservadorismo alemão tornou-se constitucional e prudente, centrado no Estado de direito, na economia social de mercado e na integração europeia.
A Alemanha pós-guerra substituiu a exaltação nacional por uma forma de patriotismo cívico, que valoriza mais a responsabilidade do que o orgulho.
O soberanismo, aqui, é residual — a União Europeia é vista não como ameaça, mas como garantia de estabilidade e redenção histórica.
É o caso de um país que conserva para não repetir, e cede soberania para não perder a paz.

O Parlamento em Westminster — símbolo da tradição constitucional  e do soberanismo parlamentar britânico

Reino Unido — o soberanismo pragmático

O Reino Unido foi sempre uma exceção europeia.
O conservadorismo britânico é empírico e gradualista: confia na tradição, mas ajusta-a quando necessário.
A monarquia, o parlamentarismo e o direito, que se pratica por hábito, são exemplos de instituições que evoluíram sem rutura.
O soberanismo, porém, é aqui muito mais firme.
O Brexit foi a expressão contemporânea dessa mentalidade insular: uma defesa da soberania parlamentar e do controlo democrático sobre as decisões políticas.
Não se tratou apenas de identidade cultural, mas de autogoverno e responsabilidade.
Mesmo dividida internamente, a sociedade britânica continua a acreditar que a liberdade começa em casa.

O Palazzo Montecitorio, em Roma — sede da Câmara dos Deputados e expressão da identidade política plural da Itália

Itália — identidade fragmentada, soberania emotiva

A Itália é o país onde o conservadorismo é mais cultural do que político.
A unificação tardia e as diferenças regionais deram-lhe uma identidade plural, por vezes contraditória.
O conservador italiano defende a herança artística, a família, o catolicismo social e a vida comunitária.
O soberanismo, por outro lado, tem sido popular e reativo, surgindo em momentos de crise — contra Bruxelas, contra a imigração, contra a globalização.
Movimentos como a Lega ou Fratelli d’Italia exprimem um soberanismo emocional, que mistura orgulho nacional com desconfiança externa.
É a busca de uma Itália “normal”, mas soberana, num mundo que lhe parece cada vez mais desordenado.

O Congresso dos Deputados, em Madrid — símbolo da unidade constitucional num país de identidades diversas

Espanha — o dilema das nações internas

Em Espanha, conservadorismo e soberanismo convivem de forma tensa.
O conservadorismo espanhol é institucional e constitucional, defensor da unidade do Estado e da monarquia parlamentar.
Mas a história recente mostra o outro lado: os nacionalismos regionais (catalão, basco, galego) que reivindicam soberania própria.
Assim, o soberanismo espanhol é duplo e conflituoso: centralista no poder nacional, autonomista nas periferias.
O conservador quer preservar a unidade; o soberanista regional quer redefini-la.
O resultado é um equilíbrio frágil entre a coesão do Estado e a diversidade das identidades.

Assembleia da República, representando a estabilidade  e continuidade democrática portuguesa

Portugal — serenidade histórica, soberania discreta

Portugal tem uma das identidades mais antigas e estáveis da Europa.
O seu conservadorismo é histórico e moderado, mais cultural do que partidário: preserva a língua, o território, a história e a continuidade do Estado.
O soberanismo português raramente se manifesta em tom combativo — prefere a cooperação equilibrada, tanto com a União Europeia como com o mundo lusófono.
Ainda assim, em momentos de crise, emerge um instinto soberanista discreto: na defesa do mar, da agricultura, da língua, ou da independência económica.
É um soberanismo de dignidade e memória, não de confronto.
Portugal conserva por afeto e resiste por hábito.

Síntese europeia — unidade na diversidade

Em conjunto, a Europa mostra que não existe um único modelo de conservadorismo nem de soberanismo.
Cada país expressa estes valores à sua maneira:

  • França combina orgulho republicano com autonomia diplomática;
  • Alemanha substitui orgulho por responsabilidade;
  • Reino Unido defende a liberdade pela soberania;
  • Itália busca identidade na emoção popular;
  • Espanha equilibra unidade e pluralidade;
  • Portugal preserva serenamente a sua continuidade histórica.

Esta diversidade não é fraqueza: é sinal de vitalidade.
Mostra que, na Europa democrática, estes dois ismos são compatíveis com a liberdade, desde que moderados pela razão e ancorados em instituições legítimas.
O perigo não está nas doutrinas, mas no esquecimento do equilíbrio que as sustenta.

Bem Haja.

Leituras recomendadas:

·  Charles de GaulleO fio da espada  (soberania francesa)

·  Zbigniew BrzezinskiO grande tabuleiro (Europa e equilíbrio estratégico)

·  Anthony GiddensA Terceira via (para perceber o papel da UE)

·  Timothy Garton AshA lanterna mágica (Europa Central)

·  HabermasA constelação pós-nacional (contra a soberania clássica)

Nota do autor:

Este texto não tem pretensões académicas. É uma reflexão pessoal sobre temas que me interessam enquanto cidadão e observador do nosso tempo.

Este texto teve a participação de IA

Conservadorismo e Soberanismo I

A visão universal destes dois ismos

A ideia de soberania e de pertença acompanha a história de todas as civilizações

Vivemos num tempo em que as palavras antigas voltam a ganhar vida. Termos como conservadorismo e soberanismo, durante décadas confinados a debates teóricos ou partidários, regressam hoje ao discurso público com nova força. Para uns, representam a defesa da identidade e da liberdade dos povos; para outros, são sinais de fechamento e de desconfiança perante o mundo.
Antes de julgar, talvez importe compreender. Que significam, afinal, estes dois ismos quando observados à escala global? E será que têm os mesmos valores em todos os lugares onde se manifestam?

Ideias universais, expressões locais

Tanto o conservadorismo como o soberanismo nascem de um mesmo instinto humano: a necessidade de preservar o que dá sentido à comunidade.

O primeiro foca-se na continuidade moral e cultural; o segundo, na autonomia política e na autodeterminação coletiva.
Ambos partem da convicção de que a liberdade não é plena se a sociedade perde as suas raízes ou a capacidade de decidir por si. Mas, embora universais no impulso, estes dois ismos assumem formas muito diferentes consoante o lugar e o tempo.

Pensemos o que acontece nos mais diversos continentes:

O edifício do Reichstag, em Berlim — símbolo da reconstrução democrática e da prudência europeia.

A Europa e a memória do limite

Na Europa, o conservadorismo tem uma longa história ligada à defesa da ordem, da tradição e da prudência política.

Depois das guerras e das ditaduras do século XX, este foi reformulado como conservadorismo democrático: uma ética da moderação, que valoriza a liberdade individual sem destruir o tecido moral que a sustenta.

O soberanismo europeu, por seu lado, é mais recente. Surgiu como reação à integração supranacional e à globalização económica.

É a tentativa de reequilibrar o poder entre as instituições europeias e os Estados, recordando que a democracia só existe onde há um povo que decide.

A Europa é, portanto, o continente onde estes dois ismos coexistem em tensão: a prudência conservadora e a autonomia soberanista, ambas procurando proteger o que resta da soberania moral e política das nações democráticas.

O Capitólio, em Washington, D.C. — símbolo do patriotismo cívico e da fé constitucional norte-americana.

Os Estados Unidos e o patriotismo cívico

Nos Estados Unidos, o conservadorismo é inseparável da religião civil americana — a crença na liberdade como missão e na Constituição como símbolo sagrado.

Aqui, ser conservador não significa resistir à mudança, mas preservar o espírito fundador: a fé na liberdade individual e na responsabilidade pessoal.

O soberanismo americano, por sua vez, manifesta-se sob a forma de excecionalismo. Os EUA veem-se como guardiões do próprio destino e hesitam em submeter-se a instituições internacionais.

Deste modo, o nacionalismo americano é cívico, não étnico; missionário, não defensivo.
Onde o europeu vê ameaça, o americano vê propósito.

Monumento a Bolívar e San Martín, em Guayaquil — símbolo da soberania e da união latino-americana.

A América Latina e a soberania como dignidade

Na América Latina, a palavra soberania tem ressonâncias de luta e emancipação. O continente nasceu de guerras de independência e de uma constante afirmação contra influências externas, primeiro coloniais, depois económicas.

O conservadorismo, aqui, é frequentemente cultural e religioso, ligado à tradição católica e à defesa da família; enquanto o soberanismo é popular e social, um grito de dignidade das maiorias contra a dependência e a desigualdade.

Em países como a Argentina, o México ou o Brasil, a ideia de nação mistura-se com a de justiça social.

É um soberanismo emocional e moral, mais do que institucional — uma forma de dizer: “somos um povo e merecemos respeito”.

O Templo do Céu, em Pequim — símbolo da harmonia entre tradição e poder civilizacional na Ásia.

A Ásia e o renascimento das civilizações

Na Ásia, estes dois ismos assumem um tom diferente — civilizacional e pragmático.

Na China, o Partido Comunista legitima-se através de um discurso de renascimento nacional: “tornar grande de novo a nação chinesa”.

Na Índia, o conservadorismo confunde-se com o hindutva (https://pt.wikipedia.org/wiki/Hindutva), a ideia de que a civilização hindu é a alma da nação moderna.

No Japão e na Coreia do Sul, o conservadorismo é tecnocrático e meritocrático, centrado na preservação da ordem social e no orgulho cultural.

Em todos estes casos, o soberanismo é menos democrático e mais estratégico: soberania como força e como destino, mais do que como escolha popular. A legitimidade nasce da estabilidade, não do voto.

Pontos em comum e diferenças essenciais

Apesar de tanta diversidade, há um conjunto de valores universais que atravessa estes dois ismos, onde quer que surjam:

  • A identidade como fundamento da comunidade;
  • A autodeterminação como direito político;
  • A memória como fonte de legitimidade;
  • A ordem como condição da liberdade;
  • E a dignidade coletiva como expressão da soberania.

O que muda é a hierarquia desses valores:
.A Europa prioriza a liberdade equilibrada pela memória;
.Os Estados Unidos, a liberdade como destino;
.A América Latina, a dignidade social;
.A Ásia, a ordem e o orgulho civilizacional.

São, por assim dizer, diferentes alfabetos de uma mesma linguagem moral.

Conclusão: raízes e horizontes

Olhar para estes dois ismos à escala universal ajuda a desfazer preconceitos: nem todo o conservadorismo é reacionário; nem todo o soberanismo é isolacionista.

Ambos expressam a vontade de preservar o que dá forma à liberdade: um sentido de pertença, uma herança partilhada, um território político que o tempo legitimou.
Quando moderados pela razão e abertos à responsabilidade, o conservadorismo e o soberanismo são forças de coesão, não de rutura.

Talvez por isso continuem a regressar, cada vez que a humanidade sente que está a perder o chão.

Bem Hajam

Leituras recomendadas:

– Edmund Burke — Reflexões sobre a Revolução em França (1790) — a obra fundadora do conservadorismo moderno.

– Russell Kirk — A mentalidade Conservadora (1953) — texto central do pensamento conservador anglo-saxónico.

– Roger Scruton — Como ser um conservador (2014) — defesa contemporânea do conservadorismo como amor pelo que é familiar.

– Pierre Manent — a Razão das Nações (2006) — reflexão sobre a Europa e a nação como espaço moral e político.

– Michael Oakeshott — Racionalismo em Política (1962) — crítica à política baseada em abstrações, defendendo a experiência herdada.

Nota do autor:

Este texto não tem pretensões académicas. É uma reflexão pessoal sobre temas enquanto cidadão e observador do nosso tempo.

Este texto teve a particpação de AI

Eleições Presidenciais 2025

Entre o centrão fatigado e a direita insurgente

As próximas eleições presidenciais de janeiro 2026 prometem um confronto inédito: o centrão político, que tem dominado a vida pública portuguesa nas últimas décadas, enfrentará uma direita populista em ascensão, que se apresenta como alternativa ao sistema.

O ato eleitoral colocará frente a frente candidatos independentes e outros com ligações partidárias claras, refletindo a divisão entre a política tradicional e novas formas de mobilização.
Entre os nomes mais falados estão António José Seguro e Marques Mendes, representantes do centrão, Gouveia e Melo, que se posiciona igualmente no centrão, e André Ventura, que lidera a candidatura mais abertamente ideológica e de rutura.

Pelo seu discurso e pelo partido que representa, André Ventura é o candidato que mais curiosidade e expectativa desperta entre os eleitores que procuram uma alternativa ao sistema. Embora ainda não sejam conhecidas todas as suas propostas para a Presidência da República, é possível antecipar o seu conteúdo a partir dos documentos programáticos do partido — nomeadamente as 100 Medidas Chega (2022) e o Programa Eleitoral para as Legislativas de 2025.

I. A matriz ideológica: nacionalismo, conservadorismo e populismo

Com base nesses documentos, é possível traçar o perfil ideológico do Chega como um movimento de matriz nacional-conservadora e populista de direita, que evoluiu de um conjunto de eixos programáticos genéricos para um programa de governo detalhado e coerente.
O Programa Eleitoral de 2025 consolida as ideias apresentadas nas 100 Medidas, reforçando os pilares da soberania nacional, da segurança interna e da rejeição das ideologias progressistas ou globalistas.

1. Nacionalismo e Soberanismo

Ambos os textos colocam a Soberania Nacional e os Interesses de Portugal no centro da ação política.

Patrícia de Melo Moreira/Getti images

2. Conservadorismo Social e Cultural

Esta é uma das dimensões mais consistentes do discurso político do partido.

  • Defesa da família tradicional: Apresentada como “a célula originária e fundamental da sociedade portuguesa”, a família deve, segundo o programa, ser protegida do “combate ideológico” promovido por políticas progressistas.
  • Rejeição da cultura woke: Condena a “propaganda da agenda LGBTI” e da “ideologia de género”, defendendo que o ensino deve preservar a visão tradicional dos papéis familiares e sexuais.
  • Valorização da História e Identidade: O ensino da História de Portugal deve recusar leituras revisionistas e assumir com orgulho o papel do país no mundo e na Lusofonia.
  • Caráter pró-vida: Defende a promoção de uma “cultura pró-vida”, propondo restrições à interrupção voluntária da gravidez, exceto em casos de violação, malformação fetal ou risco de vida da mãe.

3. Populismo Antissistema e Anticorrupção

O Chega apresenta-se como uma força de rutura contra o “sistema podre e corrupto” que, segundo o partido, tem governado o país.

  • Tolerância zero e endurecimento penal: Defende prisão perpétua para crimes graves e castração química para agressores sexuais reincidentes.
  • Combate à corrupção: Propõe agravamento das penas, perda da reforma e impedimento vitalício para políticos condenados exercerem cargos públicos ou transitar para empresas tuteladas.
  • Reforma política: Defende a redução do número de deputados (para 100-180) e a criação de um círculo nacional de compensação eleitoral.

4. Liberalismo Económico

Na economia, o partido aposta numa visão liberal e fiscalmente redutora, com foco na diminuição da intervenção estatal.

  • Simplificação fiscal: Propõe duas taxas de IRS (15% e 30%) e redução progressiva do IRC para 15%.
  • Abolição de impostos: Prevê a eliminação do IMI e do imposto sucessório para familiares diretos.
  • Rejeição do assistencialismo: O Rendimento Social de Inserção deve implicar contrapartidas em trabalho comunitário.

5. Pragmatismo Integrador (2025)

O programa de 2025 introduz medidas de caráter mais técnico, procurando integrar o discurso ideológico em soluções de governação:

  • Saúde: Propõe um modelo misto (ADSE Plus) que combine os setores público, privado e social.
  • Energia: Defende o desenvolvimento da energia nuclear (reatores SMR) para reforçar a soberania energética.
  • Infraestruturas: Propõe abolição de portagens, expansão ferroviária de alta velocidade e novo aeroporto.

II. O significado político da candidatura

Em síntese, os documentos do Chega traduzem uma ideologia nacionalista, conservadora e populista, que procura afirmar-se como resposta ao desgaste do sistema partidário tradicional.
O discurso da soberania, da ordem e do combate à corrupção funciona como eixo mobilizador de um eleitorado que se sente excluído ou desiludido com o “centrão”.

André Ventura, com esse programa, apresenta uma visão clara e coerente — o que, para muitos eleitores, é já uma forma de diferença.
Ainda faltam quase três meses para o ato eleitoral, e muito ruído mediático se fará sentir. Mas este exercício de leitura serve, modestamente, para clarificar o sentido político da sua candidatura e o contraste que ela estabelece com o sistema vigente.

Outros candidatos apresentarão certamente outras visões de Portugal.
O que estará em causa, em janeiro, é mais do que a eleição de um presidente — é o modelo de país que os portugueses desejam reafirmar ou transformar.

Bem hajam.