O Retorno do Político na Europa VI

Os riscos anunciados pela esquerda e o ‘centrão’ sobre partidos populistas são inexistentes face às experiências atuais?

Acusações com base em previsões podem ser válidas?

 “Tal como é usado hoje, ‘populismo’ é um termo de abuso aplicado por pensadores do establishment a pessoas cujas vidas não se deram ao trabalho de compreender.”

John Gray

Quando se fala dos avisos vindos da esquerda ou do ‘centrão’ sobre partidos classificados como “xenófobos”, “racistas” ou “iliberais”, não dá para tratar tudo como histeria política. Em vários casos, há mesmo riscos reais documentados, e não simples futurologia partidária.

Quando certos partidos chegam ao poder e começam a: pressionar ou intimidar tribunais, trocando magistrados, limitando autonomia ou criando mecanismos de “disciplina” política; interferir diretamente na comunicação social, seja através de controlo estatal, seja criando ambientes de intimidação sobre imprensa privada; alterar regras eleitorais para garantir vantagem estrutural futura ou de forma organizada e não acidental.

Então estamos perante comportamentos observáveis, registados e analisados internacionalmente. Nestes casos, os alertas não são alarmismo; são constatação de padrões.

Ou seja: existe um núcleo duro de riscos que não são previsões dramáticas, mas práticas verificáveis em países onde certas famílias políticas, sobretudo de tendência nacional-populista ou antiliberal, já governaram. E este histórico torna impossível dizer que todos os avisos são inventados ou exagerados. Há precedentes concretos e mensuráveis.

Há também exagero retórico

“O estilo paranoico da política começa quando a disputa política deixa de ser vista como competição e passa a ser tratada como uma guerra pela sobrevivência.”
Richard Hofstadter

Não obstante, ao mesmo tempo, não se pode ignorar que existe também exagero retórico no debate político.

Hoje em dia, basta um partido levantar dúvidas sobre imigração, criticar certas políticas de género ou discordar da linha dominante da União Europeia para imediatamente aparecer alguém a colar-lhe o rótulo de “fascista”, “racista” ou “extremista”.
E este reflexo automático tem um efeito perverso: banaliza os rótulos.

Quando tudo é “fascismo”, nada o é.

E, pior, torna mais difícil perceber quais os casos que realmente merecem atenção séria.

Por outro lado, isso não significa que todas as previsões são fantasiosas. Previsões podem ser legítimas, desde que tenham base real.

Faz sentido alguém dizer: tendo em conta o programa A e o histórico de declarações B é plausível que, se chegarem ao governo, tentem fazer Z.

Em democracias liberais, como as que temos na Europa, é frequente, na retórica política, os partidos entre si se acusarem de previsões fantasiosas, mesmo populistas. Sejam os partidos de esquerda, do ‘centrão’ ou os mais radicais de ambos os extremos.

Isto é análise política normal: olhar para o que um partido promete, para o que já disse, para a forma como partidos semelhantes agiram noutros países e, a partir daí, antecipar consequências prováveis. É totalmente diferente de entrar no dramatismo do “se estes ganham, é o regresso do Fascismo”, que raramente tem fundamento e serve mais para mobilizar medo do que para informar.

No fim do dia, não existe resposta simples: não é verdade que os riscos são inexistentes, mas também não é verdade que todos os avisos são prova irrefutável de que está para chegar um autoritarismo iminente.
A abordagem intelectualmente honesta é sempre caso a caso: olhar para o programa, para o que fizeram partidos semelhantes noutros países, avaliar até que ponto respeitam as regras democráticas e observar como se comportam depois de ter poder real nas mãos.

Podem/devem partidos de cariz conservador utilizar estratégias populistas de direita para a mobilização de eleitores?

Quando se discute a ideia de usar populismo como ferramenta de mobilização para reforçar ou relançar uma agenda conservadora, a pergunta central é: o que acontece a uma tradição conservadora quando ela adota um estilo populista como veículo?

Historicamente, correntes conservadoras têm recorrido a elementos populistas para ganhar tração política. Não é uma novidade do século XXI. O que muda é a intensidade e a centralidade dessa estratégia. Entre os ingredientes mais comuns estão:

  • Um discurso anti-elite cultural, centrado na crítica aos “progressistas das universidades”, aos “media enviesados” ou às “elites cosmopolitas” que seriam supostamente desligadas do país real;
  • A defesa do povo normal, apresentado como vítima de engenharias sociais, burocracias ideológicas ou experimentações que ameaçam costumes e estabilidade;
  • E, claro, os apelos à nação, tradição, autoridade e segurança, que funcionam como gatilhos identitários fortes e geram um sentido de comunidade política contra um “outro” percebido como corrosivo.

Isto tudo forma um pacote retórico eficaz: simples, emocional e mobilizador.

Para correntes conservadoras que se sentem marginalizadas culturalmente, o populismo oferece um megafone: transforma frustração difusa em narrativa política coerente.

Adotar um estilo populista pode dar ganhos rápidos a forças conservadoras: aumenta a mobilização, cria identidade coletiva forte e liga emocionalmente a liderança ao eleitorado. É um atalho comunicacional poderoso.
Mas esse atalho vem com custos que aparecem logo depois — e alguns são difíceis de reverter.

Radicalização do eleitorado
Quando o conservadorismo entra em “modo populista”, o debate passa a girar em torno de guerras culturais permanentes. O eleitorado acostuma-se ao tom de confronto, às mensagens simplificadas, às explicações de nós contra eles. E depois… desligar isso é quase impossível.

Se o partido tenta voltar ao tom prudente e institucional, arrisca-se a ser acusado pelos seus próprios seguidores de ter “traído a causa”.

Pressão sobre instituições
O populismo trabalha muito com a ideia de que nós representamos o povo verdadeiro, e que quem discorda está contra o país.
Esse enquadramento, quando entra no campo conservador, costuma gerar tensões com tribunais, parlamentos, órgãos independentes, imprensa — tudo aquilo que, para o conservadorismo clássico, deveria funcionar como travões prudenciais.

Ao deslegitimar qualquer oposição como anti-povo, abre-se a porta a choques institucionais sérios.

Erosão do conservadorismo tradicional
O ponto talvez mais profundo: o populismo mina os próprios valores do conservadorismo histórico.
Aquilo que sempre foi marca do conservadorismo: prudência, gradualismo, respeito pelas instituições, ceticismo em relação a mudanças bruscas, tende a ser engolido por uma lógica de urgência, combate e simplificação.

O estilo substitui a substância. A tradição conservadora, em vez de orientar o populismo, acaba muitas vezes transformada por ele.

“O populismo não tem um significado claro, mas é usado pelos liberais para descrever a reação política à disrupção social que as suas próprias políticas criaram.”

John Gray

Bem Haja

Autores citados:

Nota do autor:

Este texto não tem pretensões académicas. É uma reflexão pessoal sobre temas que me interessam enquanto cidadão e observador do nosso tempo.

Este texto teve a colaboração de IA.

O retorno do político V

É o Populismo uma ideologia de extrema-direita? Semelhanças / diferenças (3 exemplos)

Não. Pode assumir forma de extrema-direita, mas não é sinónimo de extrema-direita.

“O populismo não é uma ideologia: é a forma de construir o político através da ideia de povo.” Ernesto Laclau

Muita gente associa populismo à extrema-direita, mas isso é mais hábito do que verdade.

O populismo pode vestir várias cores ideológicas — às vezes aparece ligado a movimentos de direita mais nacionalistas, outras vezes surge à esquerda, ou até em formatos mais “anti-sistema” sem rótulo claro.

Portanto, não é sinónimo de extrema-direita, embora possa assumir essa forma.

Semelhanças (quando o populismo é de direita/nacionalista): Quando falamos de populismo que pende para a direita ou para o nacionalismo, aí sim aparecem semelhanças com a extrema-direita. As mais óbvias são três.

“A extrema-direita combina populismo, nativismo e autoritarismo — mas uma coisa não é automaticamente a outra.”
Cas Mudde

Discurso anti-elite e anti-sistema: o discurso anti-elite: aquela ideia de que “o povo” está a ser enganado pelas elites políticas, mediáticas, económicas, Bruxelas, o que for. É um ataque constante ao “sistema”, que aparece como corrupto ou distante da vida real das pessoas.

Apelo à identidade nacional/cultural: o apelo à identidade nacional. Aqui entram as referências à tradição, à cultura, à nação ameaçada por globalistas, por imigração em excesso ou por um multiculturalismo visto como forçado. É um discurso que tenta criar uma sensação de pertença forte — “nós” contra “eles”.

Linguagem simplificadora e moralizada: a linguagem moralizada. Tanto o populismo de direita como a extrema-direita recorrem àquela divisão simplista entre “os de bem” e os “traidores”, “vendidos” ou “corruptos”. É uma forma de reduzir debates complexos a uma história de heróis e vilões, o que facilita ganhar apoio rápido, mas empobrece a discussão pública.

Diferenças (quando se compara populismo vs extrema-direita propriamente dita):

Conteúdo ideológico: apesar das semelhanças, populismo e extrema-direita não são a mesma coisa.

A diferença começa logo no conteúdo ideológico. O populismo é mais “camaleão”: pode ser de esquerda, com discurso contra a austeridade e os grandes grupos económicos; pode ser liberal e anti-burocracia; pode ser nacionalista; pode até misturar ideias contraditórias.

Já a extrema-direita costuma trazer sempre o mesmo pacote: uma visão muito marcada da identidade nacional, quase sempre com um toque étnico ou cultural, uma agenda social rígida e, por vezes, um ar de saudade de regimes mais autoritários.

Relação com a democracia liberal: Outra diferença importante está na relação com a democracia liberal.

Os populistas podem reclamar muito das instituições — tribunais, parlamento, imprensa, UE — mas, no fim do dia, costumam jogar dentro do sistema, mesmo que o critiquem sem descanso.

Já algumas correntes de extrema-direita tratam certos pilares da democracia com desconfiança: direitos das minorias, independência dos juízes, pluralismo político… tudo isso pode ser visto como “obstáculo” à vontade do “povo verdadeiro”.

Alvos principais: também há diferenças nos alvos preferidos.

 O populismo de esquerda costuma apontar as baterias para elites económicas e financeiras, falando de injustiças sociais ou do poder dos grandes interesses.

O populismo de direita — sobretudo quando se aproxima da extrema-direita — concentra-se mais em temas como imigração, minorias, perda de identidade cultural e na ideia de que o país está a “degenerar” por culpa do politicamente correto, da globalização ou de elites desligadas da realidade.

Exemplos de influência de partidos “populistas” em governos na Europa democrática? Consequências?

Alguns exemplos típicos que entram nos debates:

Itália – Governo Conte I (2018–2019) – Um dos casos mais falados quando se discute a influência de partidos populistas na Europa é o primeiro governo de Giuseppe Conte, em Itália, entre 2018 e 2019.

Esse governo juntou duas forças bem diferentes mas ambas anti-sistema à sua maneira: o Movimento 5 Estrelas, que é um populismo bastante híbrido e difícil de encaixar numa caixa ideológica, e a Liga, que representa uma direita nacionalista mais clássica.

O resultado foi um governo com uma postura muito confrontacional, tanto dentro como fora do país.

Na economia, apostaram em medidas mais gastadoras, o que trouxe logo choques com as regras orçamentais da União Europeia.

Na imigração, endureceram o discurso e as políticas, especialmente com Salvini no Ministério do Interior, e isso tornou-se um dos pontos mais marcantes do período.

E, no plano europeu, o tom subiu bastante: havia uma constante guerra de palavras com Bruxelas, alimentada pela narrativa de que a UE estava a limitar a vontade do povo italiano.

Áustria – ÖVP + FPÖ (2017–2019): Outro caso muito citado é o da Áustria, onde entre 2017 e 2019 o Partido Popular (um partido de centro-direita tradicional) governou em coligação com o FPÖ, que representa a direita populista e nacionalista do país.

Esta parceria acabou por puxar a política austríaca um pouco mais para a direita, sobretudo em temas ligados à imigração e ao asilo.

As regras ficaram mais duras e o discurso político normalizou várias ideias que antes eram vistas como típicas da direita radical.

Apesar disso, o funcionamento das instituições não entrou em colapso. Pelo contrário: quando rebentou o escândalo do Ibiza affair, que envolveu dirigentes do FPÖ, o governo caiu e foi substituído.

Ou seja, o sistema democrático conseguiu absorver o impacto, corrigir o rumo e seguir em frente — um bom exemplo de como a presença de partidos populistas num governo não implica, automaticamente, um desmantelamento das regras do jogo.

Países nórdicos – Dinamarca, Finlândia, Noruega: nos países nórdicos, como Dinamarca, Finlândia e Noruega, a influência dos partidos populistas e anti-imigração tem acontecido de uma forma mais subtil, mas muito constante.

Não é tanto através de coligações formais, mas sim de governos minoritários que precisam do apoio desses partidos para aprovar leis ou garantir estabilidade. E isso, na prática, dá-lhes bastante poder para condicionar políticas.

O resultado mais evidente tem sido o endurecimento das regras de imigração. Vários governos acabaram por adotar posições mais duras, mesmo partidos tradicionalmente moderados.

 Ao mesmo tempo, reforçou-se muito o discurso da identidade nacional — a ideia de que o Estado social, por exemplo, deve ser mais “protegido” e condicionado, dando prioridade a quem é visto como parte do núcleo tradicional da sociedade.

Apesar desta viragem, não houve crises institucionais nem derivas autoritárias. O que aconteceu foi outra coisa: uma mudança estrutural no consenso político.

Temas que antes eram marginais passaram a estar no centro do debate e a moldar políticas de forma permanente.

No geral, olhando para a Europa democrática, o padrão repete-se.

A entrada ou influência de partidos populistas não tem levado ao “fim da democracia”, como alguns temem.

O que acontece, quase sempre, é uma deslocação do eixo político: mais foco em imigração, soberania nacional e relação com a União Europeia. Soma-se a isto uma polarização verbal mais forte e, por vezes, atritos com instituições europeias. Ou seja, o impacto é real, mas faz-se sentir mais no tom, nas prioridades e no ambiente político do que no desmantelamento das regras democráticas.

“A democracia não é perfeita, mas é o melhor sistema que encontramos para corrigir os nossos próprios erros.”
Karl Popper

Bem Haja

Autores citados:

Nota do autor:

Este texto não tem pretensões académicas. É uma reflexão pessoal sobre temas que me interessam enquanto cidadão e observador do nosso tempo.

Este texto teve a colaboração de IA

O retorno do político na Europa IV

O Populismo é uma ideologia ou um processo?

“O populismo não é um conteúdo ideológico, é uma lógica política de construção do povo enquanto sujeito.”
Ernesto Laclau

Na maior parte da literatura académica recente, a resposta tende a cair para o mesmo lado: o populismo não é bem uma ideologia fechada, é mais um estilo ou uma lógica política. Não tem densidade doutrinária suficiente para competir com pacotes ideológicos clássicos — socialismo, liberalismo, conservadorismo.

Os investigadores chamam-lhe frequentemente uma ideologia de baixa densidade (thin ideology). Isto significa duas coisas simples: o populismo quase não tem conteúdos próprios, cola-se facilmente a ideologias mais robustas — esquerda, direita, nacionalismo, conservadorismo, daí a frequência com que os partidos se acusam mutuamente de serem ou terem comportamentos populistas.

No fundo, o populismo funciona mais como uma forma de arrumar o mundo do que como um programa substantivo. Ele cria uma divisão moral simplificada: de um lado, “o povo verdadeiro”, puro, autêntico; do outro, “as elites corruptas”, o “sistema”, as “castas”, “Bruxelas”, “os globalistas”, conforme o contexto.

É por isso que conseguimos ter populismos para todos os gostos: de esquerda, de direita, nacional-conservadores, e até versões tecnocráticas que usam a retórica anti-elite com roupagens mais técnicas.

O núcleo emocional do populismo está sempre ali à vista: a convicção de que só “nós” representamos o povo autêntico — e que todos os outros atores políticos são, no fundo, impostores ao serviço de interesses ocultos. Essa pretensão de representação exclusiva é o que dá ao populismo a sua força moral.

“O populismo é uma ideologia de baixa densidade que divide a sociedade entre um povo puro e homogéneo e uma elite corrupta.”

Cas Mudde

E como esta lógica é flexível, ela adapta-se a quase qualquer ecossistema político. Daí surgirem várias espécies de uma mesma floresta:

  • populismo de esquerda, centrado em elites económicas ou políticas;
  • populismo de direita, mais focado em elites culturais ou “globalistas”;
  • populismo nacional-conservador, que mistura anti-elitismo com defesa da identidade nacional;
  • e até versões tecnocráticas, quando alguém se coloca como a voz “racional” contra uma elite política incompetente.

No fundo, o molde é sempre o mesmo — muda é o conteúdo.

Um partido conservador pode agir como partido de protesto utilizando comunicação populista?

“O populismo prospera em momentos de crise, quando a promessa de dar voz ao ‘povo comum’ ganha força emocional.”
Margaret Canovan

Claro que sim. Não há contradição nenhuma.

Um partido pode continuar firmemente conservador no conteúdo — defesa da família, da ordem, da autoridade, algum ceticismo perante mudanças rápidas e, ao mesmo tempo, adotar uma linguagem típica de protesto populista.

Como exemplos? Com aquelas narrativas emblemáticas: “nós, o povo normal, contra as elites progressistas”; “os de cima traíram a nação e a tradição”; “os imigrantes levam o que é vosso porque as elites deixaram”.

Aqui, o que muda não é a ideologia de fundo, mas o estilo de comunicação. O partido continua conservador no programa, mas funciona como partido de protesto e fala num registo populista que divide o mundo entre povo virtuoso e elites adversárias.

Neste tipo de casos, a arquitetura é simples de mapear, mas vale a pena abrir um pouco cada camada para perceber como funcionam juntas.

Ideologicamente, o partido continua conservador.

Ou seja, mantém o mesmo conjunto de valores: defesa da família, importância da ordem social, respeito pela autoridade, prudência face a mudanças rápidas, valorização da tradição e da identidade nacional. Nada disso muda. O núcleo doutrinário permanece intacto — é o esqueleto que dá forma ao que o partido defende, independentemente do momento político

Funcionalmente, porém, comporta-se como um partido de protesto.

Isto significa que passa a posicionar-se como “contra” algo: contra o sistema, contra o rumo do país, contra elites políticas que considera desligadas do eleitorado. Começa a dramatizar falhas institucionais, a denunciar omissões e a construir uma postura de resistência.

Mesmo mantendo a ideologia conservadora, a prática política desloca-se para o papel de quem agita, denuncia e desafia a ordem estabelecida.

Estilisticamente, fala como um movimento populista.
Aqui entra o vocabulário específico: a divisão simples entre “o povo” (decente, injustiçado, ignorado) e “as elites” (corruptas, distantes, decadentes). Junta-se o tom de vitimização — “estão a tirar-vos tudo” — e o dramatismo quase apocalíptico, que pinta o futuro como um precipício caso nada seja feito.

Este estilo não altera o conteúdo conservador, mas altera a forma de o comunicar”.

“O cerne do populismo não é apenas a crítica às elites, mas a pretensão de que só os populistas representam verdadeiramente o povo.”

Jan-Werner Müller

Bem Haja

Autores citados:

Nota do autor:

Este texto não tem pretensões académicas. É uma reflexão pessoal sobre temas que me interessam enquanto cidadão e observador do nosso tempo.

Este texto teve a colaboração de IA

O retorno do político na Europa III

Populismo: como desmontar o ruído da esquerda e do centrão?

Separar rótulo de conteúdo

“Rótulos não são explicações. Muitas vezes são substitutos de explicações.”
Thomas Sowell

Quando alguém dispara a palavra “populista”, normalmente está a tentar ganhar a discussão sem ter de a fazer. É um atalho retórico: em vez de explicar porque discorda de uma proposta, cola um rótulo que supostamente resolve o assunto. Por isso, o primeiro passo é sempre puxar o travão e perguntar: Quando chamam X de populista, o que é que estão a descrever, exatamente?”

Só esta pergunta, dita com calma, muda a iniciativa. Porquê? Porque obriga o outro lado a sair da espuma das emoções e a entrar nos detalhes. E os detalhes contam.

A que é que se podem estar a referir?

Três possibilidades muito comuns:

  • O estilo retórico, pode ser simplesmente uma maneira de comunicar que usa o clássico “o povo vs. as elites”. Isso é estilo, não é política pública. Dois políticos podem defender a mesma medida, mas um fala de forma emocional e o outro de forma técnica: só um é chamado populista.
  • Políticas concretas, ás vezes o rótulo aparece quando alguém propõe algo polémico ou anti-consenso. Só que discordar de uma medida não significa que ela seja “populista” no sentido analítico. Significa apenas… discordar.
  • Puro gesto para deslegitimar, em muitos casos, não há estilo específico nem políticas diferentes: só há conveniência política. “Populista” vira sinónimo de “não gosto” ou “não pertence ao meu pensamento”. É aqui que o rótulo perde totalmente o conteúdo e vira arma.

É por isso que separar o termo do conteúdo real corta mais de metade do ruído. A conversa deixa de ser sobre etiquetas e passa a ser sobre o que importa: argumentos, propostas, evidências.

“Antes de discutirmos ideias, precisamos primeiro de concordar sobre o significado das palavras que usamos.”
Raymond Aron

Pedir critérios consistentes

Depois de clarificar o que o rótulo quer dizer, vem o segundo movimento: coerência nos critérios. Se alguém diz: “Partido X é populista porque critica a UE”, a pergunta óbvia é: “Então quando o teu partido critica a UE, isso também é populismo?”

Isto não é provocações, nem truques. É lógica básica: se um critério vale para uns, tem de valer para todos. Caso contrário, não estamos a falar de análise — estamos a falar de preferências políticas mascaradas de análise.

“Honestidade intelectual exige que apliquemos a nós próprios os mesmos padrões que aplicamos aos outros.”
Karl Popper

O que acontece quando se pede coerência?

Uma de duas coisas:

  1. A pessoa ajusta o critério e a conversa fica mais séria.
    Pode dizer: “Ok, não é só criticar a UE; é criticar a UE enquanto se apela à divisão moral entre povo bom e elites corruptas”. Muito bem, aqui já estamos num nível mais sólido.
  2. O discurso desmancha-se. Quando o critério só funciona num campo político e nunca no outro, fica claro que estamos perante “ruído moral”: indignação seletiva, não análise objetiva.

E é isto que muitas vezes está escondido por trás das grandes palavras: previsões sombrias, indignações repentinas, rótulos rápidos. Tudo isso gera barulho, não esclarecimento.

Pedir critérios consistentes força o debate a ficar honesto. Mesmo quando não há acordo, pelo menos há terreno comum.

Distinguir medo legítimo de alarmismo

“A democracia não é tão frágil quanto afirmam os seus críticos, nem tão indestrutível quanto assumem os seus defensores.”
Fareed Zakaria

Um dos grandes problemas do debate político atual é que tudo é drama. Há riscos reais na democracia moderna? Claro que há e ignorá-los seria ingenuidade. Só que misturar riscos concretos com previsões apocalípticas cria mais confusão do que clareza.

Medo legítimo é uma coisa…

Há sinais que merecem atenção séria: tentativas de enfraquecer tribunais ou limitar independência judicial, pressão direta sobre jornalistas ou meios de comunicação, tentativas de capturar o Ministério Público ou órgãos de supervisão ou mudanças constitucionais feitas para beneficiar quem está no poder.

Quando isto acontece — seja à esquerda, ao centro ou à direita — é normal que as pessoas fiquem preocupadas. Isto é medo legítimo, porque tem base factual.

Alarmismo é outra completamente diferente

“A política é a arte do exagero.”
George Bernard Shaw

O alarmismo aparece quando qualquer partido fora do “arco tradicional” é imediatamente descrito como ameaça existencial. A velha frase “vem aí o fascismo” é um bom exemplo: usa-se antes de haver ações concretas que justifiquem tal rótulo.

A questão é simples: se tudo é crise democrática, nada é crise democrática.
Quando o alarme toca sempre, as pessoas deixam de ouvir quando há motivo real para ouvir.

A tarefa honesta

O trabalho sério não é abraçar previsões negras nem ser ingénuo. É separar:

  • casos onde houve retrocesso democrático mensurável,
  • casos onde houve apenas medo político, exagero ou tentativa de controlar a narrativa.

Este filtro obriga a discutir factos, não antecipações emocionais.

Olhar para a realidade, não só para narrativas

A melhor forma de cortar o ruído é ir aos indicadores concretos. Em vez de discutir sensações ou slogans, olha-se para o que realmente mudou (ou não mudou) na prática.

Perguntas simples que limpam muito ruído:

  • Houve alterações constitucionais que concentram poder?
  • Houve pressões sistemáticas e documentadas sobre juízes?
  • Os jornalistas foram impedidos de trabalhar ou houve tentativas de controlar meios de comunicação públicos?

Quando exemplos como os anteriores acontecem, há motivo para preocupação séria.
Quando não acontecem, talvez a narrativa do “fim da democracia” seja mais um slogan mobilizador do que uma análise.

Não significa que não existam tensões políticas — significa apenas que tensão não é automaticamente colapso institucional.

Porquê insistir em factos reais?

“Os factos não deixam de existir só porque são ignorados.”
Aldous Huxley

Porque estes não gritam, não levantam bandeiras, não fazem teatro. Eles mostram o que está a acontecer e também o que não está. E muitas vezes é isto que corta o exagero: confronto entre narrativa e evidência.

Em resumo, desmontar o ruído passa por três movimentos muito simples:

  1. Pedir definições claras: o que se quer dizer, exatamente?
  2. Pedir critérios coerentes: valem para todos ou só para alguns?
  3. Pedir evidência concreta; houve mudanças institucionais reais?

Sem isto, o debate é uma troca de rótulos. Com isto, é possível separar análise séria de dramatização política.

Autores citados:

Nota do autor:

Este texto não tem pretensões académicas. É uma reflexão pessoal sobre temas que me interessam enquanto cidadão e observador do nosso tempo.

Este texto teve a colaboração de IA

O Retorno do Político na Europa II

O populismo é uma mistura de diagnóstico correto com soluções imperfeitas

Os conservadores sérios reconhecem o seguinte:

Diagnóstico correto:

  • Afastamento das elites políticas.
  • Desprezo pelo mundo rural.
  • Erosão da classe média.
  • Perda de segurança física e cultural.
  • Burocracia drenando soberania.

Soluções nem sempre maduras, podem ser reativas:

  • Fecham fronteiras sem plano.
  • Simplificam problemas complexos.
  • Têm discursos emocionais demais.

O populismo acaba por ser uma mistura curiosa: acerta muitas vezes no diagnóstico, mas tropeça quando chega à parte das soluções. E os conservadores mais sérios reconhecem isso sem grandes dramas.

Eles veem que há problemas reais e profundos por trás da revolta popular: a distância crescente entre as elites políticas e o cidadão comum, o desprezo constante pelo mundo rural, a classe média a perder fôlego ano após ano, a sensação de insegurança — tanto física como cultural — e uma burocracia pesada que parece engolir pedaços da soberania nacional.

O problema é que, apesar de acertarem no que está mal, as respostas populistas nem sempre vêm bem cozinhadas. Muitas vezes são reativas, feitas no calor do momento.

Fecham fronteiras sem um plano de longo prazo, tratam questões complexas como se fossem puzzles de duas peças e exageram nos discursos carregados de emoção, como quem tenta compensar a falta de estrutura com volume.

No fundo, o populismo não é a doença em si — é apenas o sintoma de algo mais fundo que se andou a ignorar durante demasiado tempo. É como uma febre política: aparece porque há qualquer coisa no organismo social que não está a funcionar bem.

Só que, em vez de tentar perceber o que realmente está a causar essa febre, a narrativa anti-populista da esquerda e do centrão prefere vestir uma postura moralista. Em vez de analisar, apontam o dedo. Em vez de tentar compreender o fenómeno, catalogam-no como defeito de caráter.

“O populismo não é um projeto político: é o retorno do povo ao espaço público, depois de ter sido excluído.”

Pierre Manent

A narrativa anti-populista da esquerda e do centrão é moralista, não analítica

A direita intelectual costuma resumir bem esta atitude: sempre que aparece um movimento populista, a reação automática do centrão e da esquerda é diabolizar, moralizar, tratar como patologia, ridicularizar e, se possível, censurar. Fazem tudo — menos tentar perceber de onde vem o descontentamento que alimenta esses movimentos.

É sempre tudo, menos tentar compreender. A esquerda prefere atirar rótulos em vez de fazer perguntas. Assim, os populistas viram automaticamente “fascistas”, “xenófobos” ou “antidemocráticos”, como se essas etiquetas resolvessem alguma coisa ou explicassem a origem do mal-estar que os faz crescer.

A direita séria costuma responder de forma mais ponderada: o populismo não é uma rejeição da democracia — é quase o contrário disso. É uma espécie de excesso de democracia direta a reagir contra um excesso de tecnocracia. É o povo a tentar recuperar espaço num sistema que passou demasiado tempo entregue a especialistas, gabinetes e instituições que ninguém elegeu.

“O que irrita as elites não é o populismo, é o povo”

Ryszard Legutko

O futuro da direita não é populista nem centrista — é conservador soberanista moderado

O caminho da direita para o futuro não passa nem pelo populismo inflamado nem pelo regresso conformado ao centrão.

A alternativa que vai ganhando força entre os pensadores mais sérios é uma direita conservadora e soberanista, mas moderada — firme nos princípios, sem cair em gestos impulsivos.

Esses autores insistem que a solução não está em voltar ao centrão, que já provou ser incapaz de responder ao desgaste social e cultural dos últimos anos. Mas também não está em ficar para sempre preso a um populismo reativo, que vive do curto prazo e do protesto permanente. A ideia é outra: construir um rumo estável, realista e capaz de proteger a comunidade sem perder a cabeça.

Um conservadorismo com soberania, mas sem isolamento

“A nação é a forma política através da qual um povo continua livre”

Pierre Manent

A ideia aqui é devolver ao país a capacidade de decidir o seu destino sem se fechar numa bolha.
Durante décadas a constante na narrativa foi de que só havia duas opções: ou se entregava o poder a instâncias supranacionais, ou se fechava numa fortaleza contra o mundo.
Os conservadores modernos rejeitam essa falsa escolha.

A soberania que defendem é prática, não teatral, passa por:

  • ter fronteiras controladas, mas manter fluxos económicos e diplomáticos abertos;
  • participar em alianças, mas sem aceitar que burocracias externas ditem leis internas;
  • cooperar, mas sem servilismo;
  • negociar, não ajoelhar.

É a diferença entre um país que age e um país que reage. Entre ser parceiro e ser satélite.Não se trata de virar costas ao mundo, mas de voltar a estar de pé dentro dele.
É uma soberania que não quebra pontes, apenas exige que as pontes sejam de dois sentidos.

“Sem capacidade de decidir por si, uma democracia deixa de o ser”

Giovanni Sartori

Identitário, mas não xenófobo

“Amar a casa não significa odiar o vizinho”

Roger Scruton

Este ponto é dos mais mal-entendidos.
Falar de identidade virou quase um tabu, como se qualquer valorização da cultura nacional fosse automaticamente um ataque a quem é diferente. Os conservadores sérios rejeitam essa chantagem moral.Para eles, identidade é memória, continuidade e pertença, não hostilidade.
É reconhecer que um país não é apenas um espaço geográfico; é um modo de viver que se transmitiu ao longo de gerações.E proteger isso não implica desprezar quem vem de fora.
Implica apenas ter regras claras:

  • acolher quem quer contribuir,
  • integrar quem chega,
  • recusar guetos e paralelismos culturais,
  • exigir respeito aos costumes e leis da casa.
  • É a ideia simples e justa: quem entra é bem-vindo, mas entra numa casa com história — não num centro comercial vazio.

A identidade aqui não é grito, é raízes. Não é medo do outro, é amor ao que é nosso.
É um “sim” tranquilo à cultura própria, não um “não” agressivo ao estrangeiro.

“Uma cultura confiante não precisa excluir: basta saber quem é”

Rémi Brague

Tradicionalista, mas não imobilista

“Um Estado sem meios de mudar carece de meios para se conservar.”

Edmund Burke

Ser tradicionalista não é viver agarrado ao passado como quem abraça uma âncora.
É reconhecer que as tradições existem porque funcionaram, porque deram estabilidade e sentido à vida das pessoas.
Mas isso não significa que a sociedade tenha de ficar congelada numa fotografia antiga.

O tradicionalista moderno vê a tradição como um fio contínuo, não como um museu fechado. É herança que se transmite, não peça de arqueologia intocável.

A lógica é esta:

  • preservar o que sustenta a vida em comum,
  • atualizar o que precisa de acompanhamento,
  • adaptar sem destruir,
  • reformar sem romper.

É a ideia de continuidade viva: a tradição não é uma jaula, é um tronco — sólido, mas com ramos que crescem.

Enquanto o progressismo quer reinventar tudo todos os anos, e o reacionarismo quer voltar para um tempo que já não existe, o conservador tradicionalista prefere melhorar o que temos, sem amputar a memória que nos trouxe até aqui.

Não é imobilismo, é prudência com sentido histórico.

“A tradição não é um grilhão, é uma conversa contínua entre gerações”

Michael Oakeshott

Pró-comunidade, mas não anti-liberal

“As associações civis são a escola da liberdade”

Alexis de Tocqueville

Os conservadores modernos defendem comunidade não como coletivismo estatal, mas como tecido social vivo: família, vizinhança, associações, voluntariado, instituições locais. É este “pequeno mundo” que dá às pessoas pertença, suporte e responsabilidade mútua.

Mas isto não implica negar a liberdade individual nem o mercado.
Pelo contrário: uma comunidade saudável precisa de gente livre, não de cidadãos tutelados por um Estado gigante.

A visão é simples:

  • a comunidade protege,
  • o indivíduo empreende,
  • o Estado garante regras claras e ninguém engole o espaço do outro.

É uma alternativa tanto ao individualismo radical (“cada um por si”), como ao estatismo sufocante (“o Estado faz tudo por ti”).

A comunidade dá raízes, a liberdade dá asas. E a combinação das duas evita tanto a solidão moderna como a dependência estatal.

O objetivo não é nivelar as pessoas, é conectá-las. É ter um país onde o indivíduo pode prosperar, mas nunca à custa de destruir os laços que tornam uma sociedade humana.

“Sem comunidades fortes, o indivíduo fica entregue ao Estado”

Robert Nisbet

Bem Haja

Autores Citados:

  • Ryszard Legutko

Nota do autor:

Este texto não tem pretensões académicas. É uma reflexão pessoal sobre temas que me interessam enquanto cidadão e observador do nosso tempo.

Este texto teve a colaboração de IA

O retorno do político na Europa I

O que os pensadores de direita conservadora realmente dizem sobre o “abalo populista” na Europa

“O populismo é a resposta de sociedades que sentem que foram administradas, não representadas.”

John Gray

Depois de décadas dominadas por economistas, tecnocratas e gestores, a Europa está a reencontrar a política: no bom e no mau sentido.
As pessoas querem voltar a discutir valores, pertença, fronteiras, deveres, limites.
Isto não é um retrocesso: é a democracia a respirar outra vez.
O perigo não é a política — é a política sem caráter.

O risco real não é a direita nem a esquerda: é a indiferença

Hoje fala-se muito de “ameaças” vindas dos extremos, mas a maior ameaça é sempre a mesma: a apatia cívica.
Quando as pessoas deixam de se interessar, outros, menos interessados no bem comum, ocupam o vazio.
A democracia morre mais depressa por abandono do que por ataque.

A Europa perdeu o consenso moral e isso está a doer

“Uma política que deixa de falar a língua moral do seu povo perde a autoridade para o governar.”
Pierre Manent

Conservadores falam de valores, progressistas falam de direitos, mas já não há um vocabulário comum. O resultado é um diálogo cheio de palavras iguais e significados diferentes.
A Europa precisa de reencontrar uma gramática moral partilhada: não para uniformizar, mas para compreender. Sem isso, tudo é ruído.

O populismo não surge do nada: é uma reação ao vazio moral do centrão

O populismo não brota do nada: ele floresce quando o “centro” político deixa de oferecer sentido, pertença e direção. Quando a política vira pura gestão tecnocrática, higiénica e sem alma. Muita gente sente que o seu mundo está a ser administrado, não representado.

Esse vazio moral e simbólico abre espaço para quem promete devolver voz, identidade e conflito legítimo ao povo. O populismo entra aí: como grito, não como programa.

Não é só raiva, é sinal de que a política deixou de tocar no essencial.

Ideia central da direita séria

O centrão (socialismo + social democracia + liberalismo tecnocrático) criou um regime de gestão, não de sentido.

O centrão juntou várias famílias políticas num consenso confortável: gerir a economia, gerir os serviços, gerir o Estado. Tudo muito estável, muito técnico… mas sem dizer para quê, em nome de quem ou com que visão de futuro.

Socialistas moderados, sociais-democratas e liberais tecnocráticos acabaram por convergir num modelo que funciona bem como máquina administrativa, mas pobre como proposta moral.

Há políticas, mas não há um rumo; há soluções técnicas, mas não há narrativa comum.

E quando a política perde sentido, o eleitor começa a procurá-lo noutro lado — e aí o populismo aparece como reação, não como capricho.

Perdeu ligação com:

  • comunidade,
  • pertença,
  • identidade,
  • fronteira,
  • autoridade,
  • responsabilidade.

O centrão criou desorientação: esquemas económicos incompreensíveis, decisões tomadas em gabinetes distantes e identidades acusadas de “retrógradas”. O centrão produziu um ambiente onde muita gente sente que perdeu o chão.

A combinação de economia opaca, tratada como engenharia para especialistas, com decisões tomadas longe da vida real, tornou a política algo distante e quase irrelevante para o cidadão comum.

Ao mesmo tempo, a moral pública tornou-se líquida, sempre em mutação, sem pontos de referência partilhados. E quem tenta apoiar-se numa identidade mais estável (nacional, cultural, religiosa, familiar) é muitas vezes rotulado de “atrasado”.

O resultado? Desorientação. E essa desorientação não é acidental: é o sintoma de uma política que administra, mas já não guia; regula, mas já não oferece pertença. É nesse vazio que o populismo cresce.

Uma Europa que deixou de falar a língua moral das pessoas comuns

“Quando as elites deixam de acreditar no povo, o povo deixa de acreditar na democracia.”

Ivan Krastev

A Europa institucional passou a falar numa gramática abstrata: direitos sem deveres, diversidade sem comunidade, progresso sem raízes. Tudo em linguagem técnica, jurídica, ou moralmente “neutra”. Só que as pessoas comuns não vivem em abstrações: vivem em vizinhanças, famílias, tradições, hábitos, pertenças.

Quando a política deixa de falar essa língua moral: feita de lealdade, responsabilidade, memória, limite, continuidade cria-se um fosso entre governantes e governados. Os líderes parecem pairar acima da sociedade, enquanto o cidadão fica a sentir que a sua forma de vida é invisível ou até embaraçosa para quem manda.

E quando uma civilização deixa de se reconhecer na voz dos seus dirigentes, alguma coisa mais funda começa a falhar.

O populismo entra a preencher o vazio, não a destruir o sistema

O Populismo não nasce para derrubar o sistema; nasce porque o sistema deixou de comunicar, de representar e de oferecer sentido. Quando o espaço político dominante se torna plano, tecnocrático, moralmente tímido e culturalmente alheado, abre-se um buraco. E a política não tolera vácuo.

O populismo entra aí como força de reaproximação: devolve voz, dramatiza conflitos reais, reintroduz pertença, obriga o sistema a ouvir. Muitas vezes é rude, imperfeito, barulhento, mas é um sinal de que a sociedade ainda quer ser vista e ouvida.

A destruição só aparece quando o próprio sistema insiste em não aprender nada e continua a tratar o mal-estar como “ignorância do povo” em vez de como aviso sério. O impulso original, esse, é de preenchimento, não de ruína.

“O populismo não é um projeto político: é o retorno do povo ao espaço público, depois de ter sido excluído.”

Pierre Manent

Bem Haja

Nota do autor:

Este texto não tem pretensões académicas. É uma reflexão pessoal sobre temas que me interessam enquanto cidadão e observador do nosso tempo.

Este texto teve a colaboração de IA

Francisco Pinto Balsemão: o poder discreto da palavra e da influência

Uma reflexão sobre o homem que moldou a política e os media em Portugal

Discreto na presença e firme nas convicções, Francisco Pinto Balsemão foi uma das figuras mais singulares da vida pública portuguesa. Entre a política e o jornalismo, construiu uma obra onde o poder se exercia com reserva, o debate com inteligência e o tempo com prudência — virtudes raras, sobretudo num país ainda em transição para a democracia quando o seu nome começou a destacar-se.

Carácter e estilo pessoal
A sobriedade e o sentido ético foram marcas constantes na forma como Balsemão enfrentou a vida pública. Nunca se deixou seduzir pelo ruído fácil da popularidade. Preferia o raciocínio à retórica, o diálogo à imposição. Representava uma ideia de liderança que conciliava competência e contenção — e que, nos dias de hoje, talvez pareça quase anacrónica.


Lisboa, 21/09/2021 – Lançamento da biografia de Francisco Pinto Balsemão (Diana Quintela)

Vida política
Foi um dos fundadores do Partido Social Democrata e, após a morte trágica de Sá Carneiro, assumiu o cargo de primeiro-ministro num período de grande instabilidade. Governou com sentido institucional e profundo respeito pela democracia, num tempo em que o país ainda consolidava o seu futuro político. O seu estilo moderado contrastava com o fervor ideológico que dominava a época, o que explica a influência mais duradoura da sua atitude do que das suas medidas.

O jornalista e o fundador do Expresso
Antes de ser político, Balsemão foi jornalista — e talvez nunca tenha deixado de o ser. Fundou o Expresso em 1973, um jornal que rapidamente se tornou uma referência de qualidade e independência editorial. Num Portugal ainda dividido, o Expresso representava uma janela de liberdade responsável: crítica, mas nunca demagógica; corajosa, mas sempre informada.

O empresário e a criação da SIC
Com a fundação da SIC em 1992, Balsemão abriu uma nova página no panorama mediático português. A televisão privada trouxe diversidade, pluralismo e modernização técnica. A sua visão empresarial manteve o mesmo traço cívico que sempre o caracterizou: acreditar que a comunicação social é um pilar essencial da democracia, e não apenas um negócio.

Influência na sociedade portuguesa
Mais do que o político ou o empresário, fica a figura do cidadão. Um homem que acreditava na força das instituições e no dever da responsabilidade pública. O seu contributo para a consolidação da democracia e para a liberdade de imprensa ultrapassa cargos ou empresas — é parte do próprio tecido cívico do país.

Francisco Pinto Balsemão foi, acima de tudo, um construtor silencioso. A sua influência não se media em aplausos, mas em legado. E talvez seja essa a forma mais digna de poder: aquela que se exerce com discrição, mas que perdura no tempo.

Autárquicas 2025

O Centrão resiste, mas o terreno político está a mudar

As eleições autárquicas do passado domingo (13.10.25) decorreram sem grandes surpresas, voltando a registar a disputa habitual entre o PSD, com 58 coligações, e o PS, com 2 coligações. Desta vez, foi o PSD — com mais coligações — que levou a vantagem, conquistando 136 presidências de câmara, enquanto o PS ficou com 128. Juntos, estes dois partidos garantiram 264 presidências em 308 municípios, confirmando o domínio do chamado #centrão político, que continua a alternar o poder local sem grandes ruturas.

Independentes em crescimento

Apesar da hegemonia dos partidos tradicionais, as candidaturas independentes reforçaram a sua presença, elegendo vinte presidentes de câmara. As listas de cidadãos não vinculados a partidos continuam a crescer, o que reforça a ideia de que o valor individual do candidato é determinante nas autárquicas — motivo pelo qual estas eleições são frequentemente consideradas incomparáveis com outros atos eleitorais.

Extrema Esquerda em queda

A extrema-esquerda continua em perda de eleitores e influência. A CDU perdeu presidências em municípios historicamente seus e viu reduzir-se o apoio do seu eleitorado tradicional. Independentemente do tipo de eleição, as perdas sucedem-se:

O Bloco de Esquerda não conseguiu eleger qualquer autarca — caminha para um fim político que tarda em chegar. O Partido Livre teve o mesmo desfecho. Ambos praticamente não existem a nível autárquico, sem quadros nem estrutura local que lhes permita participar na gestão municipal.

CDS resiste e coliga-se

O #CDS-PP manteve as presidências herdadas das autárquicas de 2021 e integrou 55 coligações municipais com eleitos. Bravo — uma nota de resistência para um partido que, apesar das dificuldades nacionais, continua a marcar presença local.

Chega: de zero a três câmaras

O partido que mais expectativas criou nestas eleições foi o #Chega. Os seus resultados foram expressivos, com aumentos de votos nos diversos órgãos autárquicos que multiplicam por três ou até por treze os valores de 2021. Partindo de zero mandatos executivos há quatro anos, o partido conquistou agora três presidências de câmara e treze presidências de junta de freguesia, num total de 1 961 autarcas eleitos:

Implantação nacional crescente

Com exceção do distrito de Viseu, todos os restantes distritos e regiões autónomas contam com vereadores do Chega — 135 no total. Nas assembleias de freguesia, o partido elegeu representantes em todo o país, somando 1 175 autarcas.

Foram muitos os comentários sobre estes resultados — alguns depreciativos, com adjetivos em excesso e pouca substância — talvez por desconhecimento ou, simplesmente, por preconceito.

Quatro anos para consolidar o terreno

Em 2021, a presença autárquica do Chega era ainda residual. Estes quatro anos permitiram aos seus autarcas ganhar raízes e aceitação junto das populações locais. A estratégia do partido foi clara: apresentar candidatos em praticamente todos os concelhos com potencial eleitoral. O objetivo, anunciado em 2021, foi concretizado em 2025.

Naturalmente, seria difícil competir em visibilidade com o PSD e o PS, que têm décadas de experiência no terreno. Ainda assim, o resultado alcançado deve ser visto — penso eu — como uma boa plataforma para 2029.

O que esperar de 2029

O Chega tem agora quatro anos para avaliar o desempenho dos seus autarcas, melhorar a formação e preparar candidaturas mais sólidas. Se conseguir consolidar esta estrutura local, poderá tornar-se um verdadeiro partido de implantação autárquica nacional.

E, se assim for, em 2029 poderemos assistir a uma disputa autárquica tripartida — PSD, PS e Chega —, o que poderá elevar a qualidade dos candidatos e dos futuros eleitos.

Em síntese

• O centrão mantém a hegemonia, mas o terreno começa a mexer.
• O crescimento dos independentes mostra que o eleitor local valoriza cada vez mais as pessoas do que os partidos.
• À esquerda, há sinais de retração profunda.
• À direita, o PSD reforça-se e o Chega emerge como novo ator com peso real nas autarquias.

Bem Hajam