Os riscos anunciados pela esquerda e o ‘centrão’ sobre partidos populistas são inexistentes face às experiências atuais?
Acusações com base em previsões podem ser válidas?
“Tal como é usado hoje, ‘populismo’ é um termo de abuso aplicado por pensadores do establishment a pessoas cujas vidas não se deram ao trabalho de compreender.”
John Gray
Quando se fala dos avisos vindos da esquerda ou do ‘centrão’ sobre partidos classificados como “xenófobos”, “racistas” ou “iliberais”, não dá para tratar tudo como histeria política. Em vários casos, há mesmo riscos reais documentados, e não simples futurologia partidária.
Quando certos partidos chegam ao poder e começam a: pressionar ou intimidar tribunais, trocando magistrados, limitando autonomia ou criando mecanismos de “disciplina” política; interferir diretamente na comunicação social, seja através de controlo estatal, seja criando ambientes de intimidação sobre imprensa privada; alterar regras eleitorais para garantir vantagem estrutural futura ou de forma organizada e não acidental.
Então estamos perante comportamentos observáveis, registados e analisados internacionalmente. Nestes casos, os alertas não são alarmismo; são constatação de padrões.
Ou seja: existe um núcleo duro de riscos que não são previsões dramáticas, mas práticas verificáveis em países onde certas famílias políticas, sobretudo de tendência nacional-populista ou antiliberal, já governaram. E este histórico torna impossível dizer que todos os avisos são inventados ou exagerados. Há precedentes concretos e mensuráveis.
Há também exagero retórico
“O estilo paranoico da política começa quando a disputa política deixa de ser vista como competição e passa a ser tratada como uma guerra pela sobrevivência.”
Richard Hofstadter
Não obstante, ao mesmo tempo, não se pode ignorar que existe também exagero retórico no debate político.
Hoje em dia, basta um partido levantar dúvidas sobre imigração, criticar certas políticas de género ou discordar da linha dominante da União Europeia para imediatamente aparecer alguém a colar-lhe o rótulo de “fascista”, “racista” ou “extremista”.
E este reflexo automático tem um efeito perverso: banaliza os rótulos.
Quando tudo é “fascismo”, nada o é.
E, pior, torna mais difícil perceber quais os casos que realmente merecem atenção séria.
Por outro lado, isso não significa que todas as previsões são fantasiosas. Previsões podem ser legítimas, desde que tenham base real.
Faz sentido alguém dizer: tendo em conta o programa A e o histórico de declarações B é plausível que, se chegarem ao governo, tentem fazer Z.
Em democracias liberais, como as que temos na Europa, é frequente, na retórica política, os partidos entre si se acusarem de previsões fantasiosas, mesmo populistas. Sejam os partidos de esquerda, do ‘centrão’ ou os mais radicais de ambos os extremos.
Isto é análise política normal: olhar para o que um partido promete, para o que já disse, para a forma como partidos semelhantes agiram noutros países e, a partir daí, antecipar consequências prováveis. É totalmente diferente de entrar no dramatismo do “se estes ganham, é o regresso do Fascismo”, que raramente tem fundamento e serve mais para mobilizar medo do que para informar.
No fim do dia, não existe resposta simples: não é verdade que os riscos são inexistentes, mas também não é verdade que todos os avisos são prova irrefutável de que está para chegar um autoritarismo iminente.
A abordagem intelectualmente honesta é sempre caso a caso: olhar para o programa, para o que fizeram partidos semelhantes noutros países, avaliar até que ponto respeitam as regras democráticas e observar como se comportam depois de ter poder real nas mãos.
Podem/devem partidos de cariz conservador utilizar estratégias populistas de direita para a mobilização de eleitores?
Quando se discute a ideia de usar populismo como ferramenta de mobilização para reforçar ou relançar uma agenda conservadora, a pergunta central é: o que acontece a uma tradição conservadora quando ela adota um estilo populista como veículo?
Historicamente, correntes conservadoras têm recorrido a elementos populistas para ganhar tração política. Não é uma novidade do século XXI. O que muda é a intensidade e a centralidade dessa estratégia. Entre os ingredientes mais comuns estão:
- Um discurso anti-elite cultural, centrado na crítica aos “progressistas das universidades”, aos “media enviesados” ou às “elites cosmopolitas” que seriam supostamente desligadas do país real;
- A defesa do povo normal, apresentado como vítima de engenharias sociais, burocracias ideológicas ou experimentações que ameaçam costumes e estabilidade;
- E, claro, os apelos à nação, tradição, autoridade e segurança, que funcionam como gatilhos identitários fortes e geram um sentido de comunidade política contra um “outro” percebido como corrosivo.
Isto tudo forma um pacote retórico eficaz: simples, emocional e mobilizador.
Para correntes conservadoras que se sentem marginalizadas culturalmente, o populismo oferece um megafone: transforma frustração difusa em narrativa política coerente.
Adotar um estilo populista pode dar ganhos rápidos a forças conservadoras: aumenta a mobilização, cria identidade coletiva forte e liga emocionalmente a liderança ao eleitorado. É um atalho comunicacional poderoso.
Mas esse atalho vem com custos que aparecem logo depois — e alguns são difíceis de reverter.
Radicalização do eleitorado
Quando o conservadorismo entra em “modo populista”, o debate passa a girar em torno de guerras culturais permanentes. O eleitorado acostuma-se ao tom de confronto, às mensagens simplificadas, às explicações de nós contra eles. E depois… desligar isso é quase impossível.
Se o partido tenta voltar ao tom prudente e institucional, arrisca-se a ser acusado pelos seus próprios seguidores de ter “traído a causa”.
Pressão sobre instituições
O populismo trabalha muito com a ideia de que nós representamos o povo verdadeiro, e que quem discorda está contra o país.
Esse enquadramento, quando entra no campo conservador, costuma gerar tensões com tribunais, parlamentos, órgãos independentes, imprensa — tudo aquilo que, para o conservadorismo clássico, deveria funcionar como travões prudenciais.
Ao deslegitimar qualquer oposição como anti-povo, abre-se a porta a choques institucionais sérios.
Erosão do conservadorismo tradicional
O ponto talvez mais profundo: o populismo mina os próprios valores do conservadorismo histórico.
Aquilo que sempre foi marca do conservadorismo: prudência, gradualismo, respeito pelas instituições, ceticismo em relação a mudanças bruscas, tende a ser engolido por uma lógica de urgência, combate e simplificação.
O estilo substitui a substância. A tradição conservadora, em vez de orientar o populismo, acaba muitas vezes transformada por ele.
“O populismo não tem um significado claro, mas é usado pelos liberais para descrever a reação política à disrupção social que as suas próprias políticas criaram.”
John Gray
Bem Haja
Autores citados:
- John Gray
- https://pt.wikipedia.org/wiki/John_N._Gray
- Richard Hofstadter
- https://pt.wikipedia.org/wiki/Richard_Hofstadter
Nota do autor:
Este texto não tem pretensões académicas. É uma reflexão pessoal sobre temas que me interessam enquanto cidadão e observador do nosso tempo.
Este texto teve a colaboração de IA.









