Eleições Presidenciais 2025

Entre o centrão fatigado e a direita insurgente

As próximas eleições presidenciais de janeiro 2026 prometem um confronto inédito: o centrão político, que tem dominado a vida pública portuguesa nas últimas décadas, enfrentará uma direita populista em ascensão, que se apresenta como alternativa ao sistema.

O ato eleitoral colocará frente a frente candidatos independentes e outros com ligações partidárias claras, refletindo a divisão entre a política tradicional e novas formas de mobilização.
Entre os nomes mais falados estão António José Seguro e Marques Mendes, representantes do centrão, Gouveia e Melo, que se posiciona igualmente no centrão, e André Ventura, que lidera a candidatura mais abertamente ideológica e de rutura.

Pelo seu discurso e pelo partido que representa, André Ventura é o candidato que mais curiosidade e expectativa desperta entre os eleitores que procuram uma alternativa ao sistema. Embora ainda não sejam conhecidas todas as suas propostas para a Presidência da República, é possível antecipar o seu conteúdo a partir dos documentos programáticos do partido — nomeadamente as 100 Medidas Chega (2022) e o Programa Eleitoral para as Legislativas de 2025.

I. A matriz ideológica: nacionalismo, conservadorismo e populismo

Com base nesses documentos, é possível traçar o perfil ideológico do Chega como um movimento de matriz nacional-conservadora e populista de direita, que evoluiu de um conjunto de eixos programáticos genéricos para um programa de governo detalhado e coerente.
O Programa Eleitoral de 2025 consolida as ideias apresentadas nas 100 Medidas, reforçando os pilares da soberania nacional, da segurança interna e da rejeição das ideologias progressistas ou globalistas.

1. Nacionalismo e Soberanismo

Ambos os textos colocam a Soberania Nacional e os Interesses de Portugal no centro da ação política.

Patrícia de Melo Moreira/Getti images

2. Conservadorismo Social e Cultural

Esta é uma das dimensões mais consistentes do discurso político do partido.

  • Defesa da família tradicional: Apresentada como “a célula originária e fundamental da sociedade portuguesa”, a família deve, segundo o programa, ser protegida do “combate ideológico” promovido por políticas progressistas.
  • Rejeição da cultura woke: Condena a “propaganda da agenda LGBTI” e da “ideologia de género”, defendendo que o ensino deve preservar a visão tradicional dos papéis familiares e sexuais.
  • Valorização da História e Identidade: O ensino da História de Portugal deve recusar leituras revisionistas e assumir com orgulho o papel do país no mundo e na Lusofonia.
  • Caráter pró-vida: Defende a promoção de uma “cultura pró-vida”, propondo restrições à interrupção voluntária da gravidez, exceto em casos de violação, malformação fetal ou risco de vida da mãe.

3. Populismo Antissistema e Anticorrupção

O Chega apresenta-se como uma força de rutura contra o “sistema podre e corrupto” que, segundo o partido, tem governado o país.

  • Tolerância zero e endurecimento penal: Defende prisão perpétua para crimes graves e castração química para agressores sexuais reincidentes.
  • Combate à corrupção: Propõe agravamento das penas, perda da reforma e impedimento vitalício para políticos condenados exercerem cargos públicos ou transitar para empresas tuteladas.
  • Reforma política: Defende a redução do número de deputados (para 100-180) e a criação de um círculo nacional de compensação eleitoral.

4. Liberalismo Económico

Na economia, o partido aposta numa visão liberal e fiscalmente redutora, com foco na diminuição da intervenção estatal.

  • Simplificação fiscal: Propõe duas taxas de IRS (15% e 30%) e redução progressiva do IRC para 15%.
  • Abolição de impostos: Prevê a eliminação do IMI e do imposto sucessório para familiares diretos.
  • Rejeição do assistencialismo: O Rendimento Social de Inserção deve implicar contrapartidas em trabalho comunitário.

5. Pragmatismo Integrador (2025)

O programa de 2025 introduz medidas de caráter mais técnico, procurando integrar o discurso ideológico em soluções de governação:

  • Saúde: Propõe um modelo misto (ADSE Plus) que combine os setores público, privado e social.
  • Energia: Defende o desenvolvimento da energia nuclear (reatores SMR) para reforçar a soberania energética.
  • Infraestruturas: Propõe abolição de portagens, expansão ferroviária de alta velocidade e novo aeroporto.

II. O significado político da candidatura

Em síntese, os documentos do Chega traduzem uma ideologia nacionalista, conservadora e populista, que procura afirmar-se como resposta ao desgaste do sistema partidário tradicional.
O discurso da soberania, da ordem e do combate à corrupção funciona como eixo mobilizador de um eleitorado que se sente excluído ou desiludido com o “centrão”.

André Ventura, com esse programa, apresenta uma visão clara e coerente — o que, para muitos eleitores, é já uma forma de diferença.
Ainda faltam quase três meses para o ato eleitoral, e muito ruído mediático se fará sentir. Mas este exercício de leitura serve, modestamente, para clarificar o sentido político da sua candidatura e o contraste que ela estabelece com o sistema vigente.

Outros candidatos apresentarão certamente outras visões de Portugal.
O que estará em causa, em janeiro, é mais do que a eleição de um presidente — é o modelo de país que os portugueses desejam reafirmar ou transformar.

Bem hajam.

Francisco Pinto Balsemão: o poder discreto da palavra e da influência

Uma reflexão sobre o homem que moldou a política e os media em Portugal

Discreto na presença e firme nas convicções, Francisco Pinto Balsemão foi uma das figuras mais singulares da vida pública portuguesa. Entre a política e o jornalismo, construiu uma obra onde o poder se exercia com reserva, o debate com inteligência e o tempo com prudência — virtudes raras, sobretudo num país ainda em transição para a democracia quando o seu nome começou a destacar-se.

Carácter e estilo pessoal
A sobriedade e o sentido ético foram marcas constantes na forma como Balsemão enfrentou a vida pública. Nunca se deixou seduzir pelo ruído fácil da popularidade. Preferia o raciocínio à retórica, o diálogo à imposição. Representava uma ideia de liderança que conciliava competência e contenção — e que, nos dias de hoje, talvez pareça quase anacrónica.


Lisboa, 21/09/2021 – Lançamento da biografia de Francisco Pinto Balsemão (Diana Quintela)

Vida política
Foi um dos fundadores do Partido Social Democrata e, após a morte trágica de Sá Carneiro, assumiu o cargo de primeiro-ministro num período de grande instabilidade. Governou com sentido institucional e profundo respeito pela democracia, num tempo em que o país ainda consolidava o seu futuro político. O seu estilo moderado contrastava com o fervor ideológico que dominava a época, o que explica a influência mais duradoura da sua atitude do que das suas medidas.

O jornalista e o fundador do Expresso
Antes de ser político, Balsemão foi jornalista — e talvez nunca tenha deixado de o ser. Fundou o Expresso em 1973, um jornal que rapidamente se tornou uma referência de qualidade e independência editorial. Num Portugal ainda dividido, o Expresso representava uma janela de liberdade responsável: crítica, mas nunca demagógica; corajosa, mas sempre informada.

O empresário e a criação da SIC
Com a fundação da SIC em 1992, Balsemão abriu uma nova página no panorama mediático português. A televisão privada trouxe diversidade, pluralismo e modernização técnica. A sua visão empresarial manteve o mesmo traço cívico que sempre o caracterizou: acreditar que a comunicação social é um pilar essencial da democracia, e não apenas um negócio.

Influência na sociedade portuguesa
Mais do que o político ou o empresário, fica a figura do cidadão. Um homem que acreditava na força das instituições e no dever da responsabilidade pública. O seu contributo para a consolidação da democracia e para a liberdade de imprensa ultrapassa cargos ou empresas — é parte do próprio tecido cívico do país.

Francisco Pinto Balsemão foi, acima de tudo, um construtor silencioso. A sua influência não se media em aplausos, mas em legado. E talvez seja essa a forma mais digna de poder: aquela que se exerce com discrição, mas que perdura no tempo.

Autárquicas 2025

O Centrão resiste, mas o terreno político está a mudar

As eleições autárquicas do passado domingo (13.10.25) decorreram sem grandes surpresas, voltando a registar a disputa habitual entre o PSD, com 58 coligações, e o PS, com 2 coligações. Desta vez, foi o PSD — com mais coligações — que levou a vantagem, conquistando 136 presidências de câmara, enquanto o PS ficou com 128. Juntos, estes dois partidos garantiram 264 presidências em 308 municípios, confirmando o domínio do chamado #centrão político, que continua a alternar o poder local sem grandes ruturas.

Independentes em crescimento

Apesar da hegemonia dos partidos tradicionais, as candidaturas independentes reforçaram a sua presença, elegendo vinte presidentes de câmara. As listas de cidadãos não vinculados a partidos continuam a crescer, o que reforça a ideia de que o valor individual do candidato é determinante nas autárquicas — motivo pelo qual estas eleições são frequentemente consideradas incomparáveis com outros atos eleitorais.

Extrema Esquerda em queda

A extrema-esquerda continua em perda de eleitores e influência. A CDU perdeu presidências em municípios historicamente seus e viu reduzir-se o apoio do seu eleitorado tradicional. Independentemente do tipo de eleição, as perdas sucedem-se:

O Bloco de Esquerda não conseguiu eleger qualquer autarca — caminha para um fim político que tarda em chegar. O Partido Livre teve o mesmo desfecho. Ambos praticamente não existem a nível autárquico, sem quadros nem estrutura local que lhes permita participar na gestão municipal.

CDS resiste e coliga-se

O #CDS-PP manteve as presidências herdadas das autárquicas de 2021 e integrou 55 coligações municipais com eleitos. Bravo — uma nota de resistência para um partido que, apesar das dificuldades nacionais, continua a marcar presença local.

Chega: de zero a três câmaras

O partido que mais expectativas criou nestas eleições foi o #Chega. Os seus resultados foram expressivos, com aumentos de votos nos diversos órgãos autárquicos que multiplicam por três ou até por treze os valores de 2021. Partindo de zero mandatos executivos há quatro anos, o partido conquistou agora três presidências de câmara e treze presidências de junta de freguesia, num total de 1 961 autarcas eleitos:

Implantação nacional crescente

Com exceção do distrito de Viseu, todos os restantes distritos e regiões autónomas contam com vereadores do Chega — 135 no total. Nas assembleias de freguesia, o partido elegeu representantes em todo o país, somando 1 175 autarcas.

Foram muitos os comentários sobre estes resultados — alguns depreciativos, com adjetivos em excesso e pouca substância — talvez por desconhecimento ou, simplesmente, por preconceito.

Quatro anos para consolidar o terreno

Em 2021, a presença autárquica do Chega era ainda residual. Estes quatro anos permitiram aos seus autarcas ganhar raízes e aceitação junto das populações locais. A estratégia do partido foi clara: apresentar candidatos em praticamente todos os concelhos com potencial eleitoral. O objetivo, anunciado em 2021, foi concretizado em 2025.

Naturalmente, seria difícil competir em visibilidade com o PSD e o PS, que têm décadas de experiência no terreno. Ainda assim, o resultado alcançado deve ser visto — penso eu — como uma boa plataforma para 2029.

O que esperar de 2029

O Chega tem agora quatro anos para avaliar o desempenho dos seus autarcas, melhorar a formação e preparar candidaturas mais sólidas. Se conseguir consolidar esta estrutura local, poderá tornar-se um verdadeiro partido de implantação autárquica nacional.

E, se assim for, em 2029 poderemos assistir a uma disputa autárquica tripartida — PSD, PS e Chega —, o que poderá elevar a qualidade dos candidatos e dos futuros eleitos.

Em síntese

• O centrão mantém a hegemonia, mas o terreno começa a mexer.
• O crescimento dos independentes mostra que o eleitor local valoriza cada vez mais as pessoas do que os partidos.
• À esquerda, há sinais de retração profunda.
• À direita, o PSD reforça-se e o Chega emerge como novo ator com peso real nas autarquias.

Bem Hajam

Liberdade em Democracia

A liberdade em Democracia é poder pensar, fazer e desejar o que se quer e assumir as consequências com os efeitos diretos ou colaterais nos outros.

A última semana foi palco de notícias sobre o assassinato de um jovem nos EUA por motivos, aparentemente, políticos.

Sabe-se hoje que está identificado e detido o presumível autor do assassinato, um outro jovem.

O motivo, presumivelmente, do assassinato, de @Charlie Kirk, 32 anos, casado, com 2 filhos menores, cristão, apoiante de Donald Trump e da política implementada e a implementar nos próximos tempos, não era do acordo do presumível assassino e, entendeu este, que assassinar seria o modo certo para silenciar @Charlie Kirk.

Confirmado que seja a autoria do crime, a justiça será feita como acontece com qualquer crime semelhante, lamentavelmente @Charlie Kirk já não está entre nós e o autor do crime, provavelmente, deixará, depois de condenado, de estar entre nós também.

Deste modo, as causas diretas deste trágico acontecimento estará solucionado. O que irá continuar serão as consequências desta tragédia e os seus efeitos colaterais emergentes e futuros.

Em termos individuais, as famílias de @Charlie Kirk e do jovem autor do crime chorarão os seus filhos por muitos anos, senão para sempre, e o futuro de todos será, certamente, marcado por esta tragédia. A disputa política tem muitas vezes estes desfechos e, infelizmente, acontece, aconteceu e acontecerá no futuro.

Nomeadamente nos EUA e na Europa, alguns cidadãos estão politicamente radicalizados entre o que se diz e faz quer na direita, esquerda ou extremos.

Não importa aqui caracterizar e elencar o que a esquerda considera ser sua iniciativa e propriedade como verdades absolutas, de igual modo a direita também. O que importa é antecipar os efeitos colaterais que este trágico assassinato trará para o futuro imediato para todos os cidadãos.

Tendo este acontecimento origem nos EUA é previsível que a reação de uma parte dos dirigentes e protagonistas identificados com a direita política estejam magoados com a morte de @Charlie Kirk, seu ideólogo, nomeadamente junto de jovens universitários. São exemplo os sucessos que mantinha com as palestras em múltiplos campus universitários.

Os ecos que nos chegam daquelas paragens pouco depois do acontecimento já indiciam uma reação, por parte de @Donald Trump e de toda a sua governação, forte, determinada e permanente.

Até ao momento ainda não se verificaram reações popular violentas o que é bom. Todos temos memória dos violentos confrontos provocados em anos anteriores protagonizados por cidadãos de esquerda em reação a eventos que, estes, em seus momentos, consideraram graves.

Não obstante, as autoridades e a sociedade cível, já iniciaram, justamente, um processo de expulsão dos seus postos de trabalho a muitos cidadãos que voluntariamente expressaram júbilo e contentamento por este trágico acontecimento com @Charlie Kirk com vídeos, publicações em redes sociais e outros meios públicos.

CALL YOUR CONGRESSMAN CANCEL LICENSES FOR ALL NETWORKS SPREADING LIES ABOUT KIRK ABOUR ROBINSON “

https://truthsocial.com/@BABBITT16/115203479945188335

Trata-se de, em muitos casos, de pessoas relevantes no seu meio profissional cuja opinião pode ser importante junto de quem ouve e, principalmente, revelam um caracter malévolo, doentio e, eventualmente, perigoso para todos nós. Por exemplo: quem pode aceitar um cirurgião que revela satisfação com este trágico assassinato., ninguém de bom senso certamente.

De igual modo a administração (funções públicas) a todos os níveis tem/deve excluir dos seus quadros pessoas que revelam tão malévolos sentimentos e desejos de morte a quem, não conhecendo na maioria dos casos, não hesitam em manifestar publicamente.

Sabe-se também que aos cidadãos estrangeiros que manifestaram publicamente opiniões semelhantes ás dos cidadãos nativos será aplicada a sanção de cancelamento de entradas no território dos EUA, seja a que pretexto for. Está tópico afeta diretamente cidadão com origem na Europa e é um exemplo para todos os que se sentem autorizados a emitir opiniões malévolas e em contra a vontade dos atuais dirigentes sobre o que se passa nos EUA. Alguns brasileiros também já devem estar bem arrependidos dos ‘orgulhosos’ post que publicaram nas suas redes sociais.

O ódio e o radicalismo ideológico devem ser combatidos não com violência física, mas com medidas que permitam, a quem o tem, sentir as consequências de seus atos. A perca de empregos, a impossibilidade de viajar livremente para um país livre e de referência como é o caso dos EUA significam uma exclusão social e um castigo exemplar.

A consequência em Portugal, previsivelmente nos países democráticos europeus também, destes acontecimentos é um aviso séria ao que alguns ‘figurões’ da nossa esquerda doméstica estão habituados a fazer e dizer dos seus opositores políticos, assim como opinarem com adjetivações negativas e ofensivas sobre cidadão e responsáveis políticos de outros países.

Quanto aos efeitos colaterais ou diretos da tragédia de @Charlie Kirk, desejo e estou certo que os seus seguidores vão continuar o trabalho que vêm desenvolvendo. A afirmação contundente da esposa de que tudo vai continuar como previsto é garantia de que continuaremos a ter boas notícias dos EUA e dos jovens americanos convictos e determinados em fazer a @AMERICA GREAT AGAIN.

Bem hajam

Alguns post sobre este tema:

Eleições na Madeira 2024

Realizaram-se no passado dia 26 de Maio 2024 eleições legislativas para a zona Autonómica da Madeira em que o partido mais votado foi o PPD/PSD, a extrema- esquerda foi varrida do parlamento e um partido local de independentes, JPP-Juntos pelo Povo, conseguiu a terceira posição no número de mandatos eleitos para a Assembleia Regional da Madeira.

              *Total de eleitores: 254.522

Destas eleições resultou que:

  • Total de eleitores 254.522 dos quais 133.909 votaram para eleger 47 deputados por vários partidos, uma média de 2.849 votos/deputado.
  • 5.921 de votos ficaram dispersos por vários partidos sem que elegessem qualquer deputado.
  • Verificando qual a % de votos que cada partido conseguiu sobre os cidadãos com direito de voto, os eleitores, temos que o partido que conseguiu a maior % foi o PPD/PSD com 19,29 e o partido que conseguiu a menor % foi o PAN com 0,99. É esta a representação efetiva de cada partido.

Os partidos radicais de esquerda tiveram nestas eleições o seu maior desaire, não conseguindo eleger qualquer deputado, os eleitores parece terem concluído que estes já não fazem falta. Analisando a evolução da implantação dos partidos radicais de esquerda em votos expressos: CDU, BE e LIVRE nos últimos 10 anos (eleições de 2015 a 2024) verificamos que:

Ao invés, o partido radical de direita CHEGA, desde que se apresentou a eleições na região autónoma da Madeira pela primeira vez em 2019, teve um crescimento eleitoral enorme e ao nível do crescimento que teve ao nível nacional seja em eleições legislativas ou autárquicas. Este partido conseguiu quebrar a hegemonia eleitoral do centrão em Portugal, (PPD/PSD, PS e CDS/PP) e num futuro próximo ser uma alternativa eleitoral para um número cada vez maior de leitores em Portugal.

Na região autónoma da Madeira já é o terceiro partido nacional em capacidade eleitoral.

Os partidos denominados do ‘centrão’ (PPD/PSD, PS e CDS/PP) não obtiveram um bom resultado no seu conjunto, se analisarmos a evolução destes 3 partidos em coligações ou separadamente nos últimos 10 anos verificamos que:

O partido local caracterizado como Populista de centro JPP- Juntos pelo Povo, tem também contribuído para um esvaziamento da política do centrão. Obteve um excelente resultado, foi a terceira força politica mais votada nestas eleições e apresenta um excelente crescimento nos últimos 10 anos:

Este partido é uma influencia grande na política madeirense e com o resultado obtido nestas eleições pode ajudar na mudança que muitos cidadãos esperam acontecer.

A IL e o PAN com uma representatividade, em % do total de eleitores de 1,36 e 0,99 respetivamente, não têm expressão neste momento.

O resultado destas eleições constitui um desafio para a continuação da hegemonia do centrão que perdura desde o início da Democracia em Portugal, ou se o partido CHEGA e o local JPP conseguem lograr influência permanente. Veremos o que os ventos da Madeira nos trazem.

Bem hajam.

CHEGA

Quando em 9 de Abril de 2019 um grupo de portugueses deu entrada no tribunal constitucional de um pedido de autorização para fundar um novo partido político, estavam conscientes da necessidade de um projeto para dar mais voz e espaço politico para todo os portugueses que não sendo socialistas nas suas múltiplas versões: socialistas radicais, social-democratas ou socialistas liberais, necessitavam de uma representação que os representa-se junto das instituições democráticas existentes.

Portugal encontrava-se numa situação de desequilíbrio no que a representação das ideologias políticas predominantes na Europa diz respeito:

  • A Direita conservadora, nacionalista e cristã não tinha uma organização política que permitisse representar todos os portugueses que dela necessitavam;
  • O partido que mais se aproximava desta necessidade, acabara de perder qualquer influência desde 2015;
  • O socialismo, a cada ano, ia controlando mais e mais as instituições do regime e consequentemente a sociedade civil.

Assim, nasceu o novo partido de direita conservadora, defensor da identidade nacional e com o propósito de aceitar e se integrar na democracia liberal europeia: O partido CHEGA.

O Tribunal Constitucional aprovou a legalização deste partido e deste modo passou a ter todos os direitos e deveres que os restantes partidos têm na democracia portuguesa.

Foi assim que iniciou o seu processo de implantação em todo o território nacional e apresentou as linhas mestras do que queria ser e fazer. Sendo um partido novo num sistema politico estabilizado em que 2 partidos dominavam o poder desde a implantação da democracia e reconhecidos como sendo o ‘mainstream’ politico em Portugal, uma esquerda radical acomodada e tolerada pelo mainstream e uma direita inexistente, decidiu o CHEGA posicionar-se como um partido radical de direita em que o Populismo seria a estratégia a utilizar para uma progressiva influencia.

De acordo com estudiosos e especialistas europeus o Populismo não é uma ideologia, mas sim um meio diferente de fazer politica, em que a agenda destes partidos, de direita ou de esquerda, propõe-se trazer para a área da governação preocupações das populações e que não encontram resposta junto dos partidos do ‘mainstream’.

Este fenómeno de partidos radicais populistas de direita começou a ter expressão a partir do início deste século e generalizou-se em toda a Europa que pratica uma democracia liberal. Em Portugal chegou em 2019.

Os fundadores do CHEGA tiveram, assim, a possibilidade de estudar e preparar o partido para que tivessem a capacidade, desde o início, de receber a aceitação de um eleitorado que, pelos mais diversos motivos, não se reviam nos partidos existentes.

Estavam, também, preparados para a oposição e luta que os restantes partidos iriam dar e fazer. Tinha sido e continua a ser assim nos restantes países europeus, mas a “caravana” passa e continuará a passar.

Após o início da atividade, uma das principais prioridades foi a de iniciar uma implantação nacional, com estruturas fixas e militantes motivados ao invés de se acantonar em nichos territoriais.

As eleições Legislativas de 2019, a primeira vez que o CHEGA foi a votos, obtiveram um resultado condicente com o tempo de atividade, o conhecimento que os eleitores tinham e, ainda, a reduzida implantação territorial. Elegeu 1 Deputado para a Assembleia da República com 67.826 votos.

Em 2021, com dois anos de implantação no território nacional e uma atividade frenética no deputado único na Assembleia da República, o CHEGA apresenta candidatos nas Eleições Autárquicas desse ano em todo o território nacional. Os resultados são bons e promissores para o futuro.

  • 208.232 votos.
  • Tem mais 140.406 votos por comparação com a anterior votação nas Legislativas de 2019. Triplica o número de votos
  • Eleitos em 7 Distritos
  • Estava criada a base necessária para fazer crescer a implantação nacional

Um ano depois, em 2022, em consequência de uma conjuntura inesperada, o CHEGA não é surpreendido, no objetivo de crescer em implantação nacional, e nas eleições Legislativas de 2022, obteve um resultado de tal modo bom que se transformou no terceiro partido em número de votos e eleitos em Portugal:

  • 399.510 votos no total
  • Tem mais 191.278 votos por comparação com a anterior votação, apenas um ano antes, nas legislativas de 2021. Quase duplica o número de votos.
  • 12 Deputados eleitos.
  • Deputados eleitos em 8 Distritos no Continente
  • A implantação territorial estava confirmada

Este ano, depois da demissão do governo em Novembro de 2023, um ano depois de ter tomado posse, realizaram-se novas eleições legislativas e CHEGA com o resultado obtido abre o primeiro rombo no mainstream português.

Os resultados merecem um pouco mais de detalhe, assim:

  • É o partido mais votado no Distrito de Faro e Europa
  • É o segundo partido mais votado nos Distritos de Beja, Setúbal, Portalegre e fora da Europa
  • Nos restantes distritos do território Nacional é o terceiro partido mais votado.
  • É o partido mais votado em 9 Concelhos: Portimão, Lagoa, Silves, Albufeira, Loulé, Olhão, Salvaterra de Magos, Benavente e Elvas
  • É o partido mais votado em 85 freguesias distribuídas por 13 Distritos e 39 concelhos do território nacional

No diz respeito aos resultados das recentes eleições legislativas de 10 de Março, são:

5 Anos depois da sua fundação, o CHEGA vê confirmada a sua implantação nacional, com deputados eleitos em todos os círculos eleitorais, com exceção de Bragança, a confirmação como o 3º partido político na Assembleia da República e o fim do bipartidarismo que caracteriza o ‘mainstream’.

Estabelecida que está uma implantação nacional em estruturas, militantes e simpatizantes que rivaliza com os 2 partido do ‘mainstream’ em Portugal, vai o CHEGA ter um novo desafio este ano: as eleições para o Parlamento Europeu.

A tendência atual é para uma subida substancial, em termos gerais, nos Países que integram a EU, dos partidos radicais de direita populista. Se o CHEGA conseguir integrar esta tendência, passará, também, a ser um parceiro forte no contexto geral europeu, com a força dos deputados que elegerá e representarão Portugal no Parlamento Europeu.

No próxima ano realizam-se Eleições Autárquicas e, então, com um resultado, previsível, que estará em linha com os atuais, será possível acreditar que o ‘mainstream’ em Portugal conhecerá um consistente longo período de perca de influencia. A esquerda poderá já este ano iniciar a perca de influência em Portugal, com a soma dos resultados desta eleição e das 2 próximas, europeias e autárquicas.

Já Chega de esquerda.

Bem Hajam.

Eleições Legislativas 2024

Os resultados do território continental e ilhas, votantes em partidos do centrão, votantes em partidos de fora do centrão, os evangélicos, os abstencionistas

Os portugueses que votaram nas eleições do passado dia de Março (6.140.269 votantes) no território continental e ilhas da Madeira e Açores1 deram como resultado:

  • AD – 1.811.027 votos – 29.49% – 79 deputados
  • PS – 1.759.998 votos – 28,7% – 77 deputados
  • CHEGA – 1.108.797 votos – 18,1% – 48 deputados
  • IL – 312.064 votos – 5,1% – 8 deputados
  • BE – 274.029 votos – 4,5% – 5 deputados
  • CDU – 202.325 votos – 3,3% – 4 deputados
  • Livre – 199.888 votos – 3,3% 4 deputados
  • Pan – 118.579 votos – 1,9% – 1 deputado

Este resultado determinou uma diferença de 52.029 votos – 0,79% e 2 mandatos entre a AD (Aliança Democrática) e o PS (Partido Socialista) o que significa que existe um empate (quase) entre ambos os partidos. Com a soma dos resultados do círculo da Europa e de fora da Europa e pode-se manter esta atual correlação de forças ou não. Não obstante, o PS declarou-se vencido e reconheceu uma vitória da AD.

A abstenção foi de 3.131.210 eleitores, 33,77%, a menor desde os anos 80 do século passado mas igualmente significativa, 1/3 dos eleitores não votaram.

Estes resultados significam que os eleitores, como um todo votaram, entre a direita e a esquerda, maioritariamente na direita e deixaram bem claro que, por agora, a esquerda está fora:

Partidos/Aliançasvotos%Deputados
Direita
AD1.811.02729,4979
Chega1.108.79718,148
IL312.0645,18
Total3.231.88852,69135
Esquerda
PS1.759.99828,777
BE274.0294,55
CDU202.3253,34
Livre199.8881,94
Total2.436.24034,490

Esta realidade indicia que Portugal pode estar a começar a ter um alinhamento com a realidade da Europa. Desde finais do seculo passado que se vem intensificando uma influência cada vez maior de politicas e partidos políticos que contestam e substituem as conservadoras, no sentido em que se perpetuam sem se renovarem, das politicas e dos partidos do ‘mainstream’.

A Europa de hoje, que tem vivido a ser governada por partidos e sistemas políticos de democracia liberal, está a ser convidada a ser governada por partidos e políticas não-alinhadas com o ‘mainstream´ e que são por estes apelidas de políticas e partidos políticos de radicais e de direita.

A esquerda ´mainstream’ e muito mais a esquerda radical já foram ultrapassados e fazem parte do passado nos governos da Europa desenvolvida e liberal. Subsistem Portugal e a Espanha.

Finalmente, parece que em Portugal, após duas décadas depois do início do século XXI, parecem estar criadas as condições para acertar o passo com o que se passa com a generalidade dos Países Europeus em que estamos integrados e que são, globalmente, um exemplo de qualidade de vida e desenvolvimento para nós portugueses.

Este resultado, como veremos adiante, foi uma derrota para a esquerda moderada do centrão e, para a esquerda radical, a confirmação de outras derrotas recentes.

Os partidos do centrão em Portugal, PS e PSD (desta vez em versão AD), mantiveram o domínio dos votantes e juntos ainda constituem uma força líder em Portugal:

Partidos/AliançasVotos%Deputados
AD1.811.02729,4979
PS1.759.99828,777
Total3.571.02558,19156
    
202223.931.19772,56192

No entanto, por comparação com as eleições legislativas de 2022, o ‘mainstream’ em Portugal perdeu domínio e poder:

  • Menos 360.172 votos
  • Menos 14,37% de votos
  • Menos 36 deputados

Merece destaque o resultado do PS:

  • Menos 542.703 votos
  • Menos 13,8% de votos
  • Menos 43 deputados

Este resultado coloca o PS como o principal responsável pele perca de influência do ‘mainstream’ para os partidos radicais, com destaque total para o CHEGA e a direita radical em Portugal. O PSD (com o CDS e o PPM) manteve a posicções não comprometeu a influência do passado recente.

Assim como na generalidade dos Países Europeus, os eleitores em Portugal alargaram as suas opções de votos e reforçaram o partido radical de direita com um crescimento em número de votos e deputados. De modo diferente, mas mantendo a tendência que se verifica nos restantes países europeus, a esquerda radical no seu todo (pulverizada por três partidos) não cresceu e manteve os baixos níveis de votantes nas atuais eleições por comparação com o ano de 2022.

Os partidos que não integram o ‘mainstream’ em Portugal tiveram um crescimento grande com total relevo para o único partido radical de direita:

Partidos/Aliançasvotos%Deputados
Direita
Chega1.108.79718,148
Esquerda
BE274.0294,55
CDU202.3253,34
Livre199.8881,94
Total2676.2429,713

Por comparação com as legislativas de 2022, os partidos que não integram o ‘mainstream’, classificados como radicais, ganharam relevância:

  • Mais 830.625 votos
  • Mais 8,4% de votos
  • Mais 37 deputados

Em Portugal o ‘mainstream’ é constituído por 2 partidos, o PS e o PSD (socialistas liberais e sociais – democratas) que se posicionam num mesmo espaço político, o centro. No entanto, os partidos classificados como radicais formam duas tendências opostas e sem possibilidade de serem analisadas como um conjunto.

Deste modo, o partido CHEGA posiciona-se no espaço político de direita, conquistou um crescimento expressivo, de modo a colocar, num futuro próximo, o ‘mainstream’ em estado de alerta, o que é positivo porque vai obrigar a uma maior competência. O crescimento do CHEGA está em linha com a atual tendência do que se passa com a generalidade dos partidos radicais de Direita na Europa, o que faz antecipar um maior crescimento no curto prazo. As próximas eleições para o Parlamento europeu poderão confirmar.

No sentido oposto, os partidos BE, PCP e Livre, posicionam-se no espaço de esquerda radical, mantiveram o resultado de 2022:

  • Mais 276.583 votos
  • Menos 1 deputado
  • Menos 0,54% de votos

Apesar da forte queda do PS (‘mainstream’), do crescimento de eleitores e da abstenção face a 2022, o espaço político dos partidos radicais de esquerda manteve-se, globalmente, com a mesma influencia face ao todo. Estando este espaço político do radicalismo de esquerda em contraciclo com a tendência da Europa, pode-se antecipar um decrescimento no curto prazo. As próximas eleições para o parlamento europeu irão confirmar. 

De entre os partidos com menor influência, importa destacar o crescimento do ADN com 100.051 votos. Este partido apresenta a possibilidade de um crescimento, no futuro próximo, a considerar. A principal base de apoio influenciada por religiosos ‘evangélicos’, com grande aceitação junto de brasileiros naturalizados, tem tendência a crescer em Portugal e que será importante para uma implantação real em todo o território nacional.

Finalmente, talvez o mais relevante para os próximos atos eleitorais, foi a descida da abstenção em número de votos expressos e % de eleitores inscritos:

  • A abstenção diminuiu em 15,07% face às eleições legislativas de 2022

As eleições decorreram normalmente o que é de saudar, os eleitores manifestaram, com o voto, uma vontade de mudar a influencia dos partidos políticos e deseja-se que os próximos tempos proporcionem uma melhoria na qualidade de vida para a maioria da população e residentes estrangeiros.

Os próximos tempos clarificarão quais partidos utilizarão os votos e influencia que tiveram em favor de um benefício nacional e do seu povo e os que iniciarão ou continuarão a pensar prioritariamente em interesses próprios.

Bem hajam.

1 . Falta apurar os votos da Europa e resto da Europa – 4 mandatos a deputados

2. Resultados totais Nacionais

Eutanásia – NÃO ou sim

Hoje, vai a votação a última versão, que o parlamento apresenta aos deputados, sobre a aprovação de uma lei que permite a qualquer cidadão solicitar que lhe seja aplicada a eutanásia 1.

Este é um assunto sobre o qual muito se tem escrito e, possivelmente, se continuará a escrever independentemente do resultado da votação parlamentar de hoje.

Pedro Passos Coelho, ex-Primeiro Ministro e político de referência para muitos portugueses, publica hoje no jornal Observador um texto sobre este assunto da eutanásia.

Este texto, além de representar um pensamento fundado do próprio autor, representa certamente o pensamento de muitos portugueses que não concordam com uma lei que permita a eutanásia.

Assim, com o respeito devido e todos os créditos ao autor, Pedro Passos Coelho, se reproduz na integra para conhecimento de quem interessado.

Bem Hajam.

https://observador.pt/opiniao/eutanasia-uma-decisao-demasiado-radical/

Eutanásia – uma decisão (demasiado) radical

Era bom que se soubesse que haverá quem não se conforma nem desiste de, no futuro próximo, pôr em cima da mesa a reversão da decisão que o parlamento se prepara para tomar, como numa democracia madura

O Parlamento prepara-se para aprovar, pela terceira vez, uma iniciativa de vários partidos para despenalizar e legalizar a eutanásia. É sabido que a última decisão parlamentar acabou por colher o veto do Presidente da República em razão de o Tribunal Constitucional a ter considerado desconforme com a Constituição em aspetos, aliás, para os quais várias opiniões juridicamente fundamentadas tinham chamado a atenção publicamente. O fim antecipado da anterior legislatura, precipitado pela decisão do mesmo Presidente, fez com que a nova tentativa só agora pudesse voltar a ser ensaiada pelos deputados. Veremos se o Presidente verá razões para voltar a suscitar a intervenção do Tribunal e, nesse caso, qual a declaração que este último emitirá sobre o texto que foi já aprovado na especialidade esta semana. Dado que não sou constitucionalista nem desejo discutir a constitucionalidade, não me manifesto sobre as eventuais desconformidades que ainda assim possam permanecer ou outras que eventualmente possam agora surgir no novo texto legal. A minha intenção é de natureza diferente e relaciona-se com a questão política de fundo.

Sou contra a legalização e despenalização da eutanásia por razões e dúvidas que tive já oportunidade de expor publicamente quando a primeira decisão parlamentar foi tomada. Tenho fundadas dúvidas, e as maiores reservas, de que as razões comumente invocadas para dar suporte a este novo regime – ser consequente com o respeito pela dignidade humana, com o reconhecimento pelo direito fundamental à autodeterminação e livre desenvolvimento da personalidade ou com a necessidade de mostrar misericórdia ou compaixão ativa perante o “sofrimento de grande intensidade” – sejam apropriadamente usadas para introduzir uma alteração tão radical na nossa sociedade como aquela que os deputados se propõem realizar.

A dignidade humana é inerente à pessoa. Deve ser invocada para defender e respeitar a pessoa enquanto tal e a vida em si mesma. Saber viver, ou morrer, com dignidade não é um sucedâneo óbvio ou imediato, mas uma questão de consistência com os valores que partilhamos. Não se perde a dignidade pelos infortúnios que a vida nos possa trazer nem se resgata dignidade simplesmente por não aceitar ou desejar viver uma vida que possa parecer ter perdido o sentido de ser vivida. Parece-me mesmo que há algo de perverso em se poder usar o conceito de dignidade humana para executar um regime público que ajuda a pôr fim à vida.

O direito à autodeterminação também não deveria ser entendido como um instrumento ao serviço do suicídio organizado socialmente. Percebe-se a intenção de usar conceitos e expressões da letra constitucional para evitar acórdãos desfavoráveis, mas no contexto da eutanásia a sua evocação soa abusiva. Como valor positivo, o reconhecimento à autodeterminação é a consagração formal do exercício do direito a ser (autónomo, independente, a ser-se quem é ou se deseja ser) e a ver respeitado tal direito. Como valor negativo importaria no reconhecimento formal ao direito individual a não ser e da respetiva aceitação social. A questão pode ser filosoficamente estimulante e pertinente, mas a extensão do reconhecimento desse direito a uma espécie de contrapartida constituída por uma obrigação social de ajudar alguém a não ser só pode ser uma corrupção, legal e filosófica, do direito à autodeterminação. Por mais defensor que seja, e sou, do princípio da liberdade, tenho dificuldade em aceitar que a extrema e, seguramente, desesperada decisão de alguém em pôr termo à sua própria vida possa entender-se como um direito a reclamar dos outros a obrigação de contribuir ativamente para ver concretizada tal decisão.

Finalmente, a questão da compaixão perante o “sofrimento” (físico ou psicológico). Mais do que as questões anteriores, esta parece ser a que socialmente mais continua a merecer a reflexão por parte das pessoas, e percebe-se que seja assim. Desde logo porque quase todos podem ter vivenciado situações de sofrimento de alguém chegado, seja porque a idade avançada trouxe esse desfecho, seja porque o infortúnio de uma doença oncológica, por exemplo, não conseguiu ser vencido. Poderia ter sido de outra maneira? Mas também porque cada um olha para o seu próprio futuro e receia ver-se confrontado com o mesmo desfecho. Terá de ser assim, ou poderá ser de outro modo? Estas possíveis perguntas compreendem-se muito bem e serão, no final de tudo, aquelas que angustiam mais as pessoas em geral. No entanto, não havendo respostas fáceis para estas perguntas, é possível conceber um sistema social em que o sofrimento seja amplamente evitado ou diminuído sem que as pessoas tenham de ser confrontadas com a necessidade de pedirem a morte, não para exercerem livremente a sua autodeterminação nem para se sentirem dignas na forma como vivem uma vida que está a chegar ao seu fim, mas para poderem viver o que lhes resta com o menor sofrimento possível, como é decente que se possa desejar. Parece-me claro que uma sociedade como a que temos hoje só não se organiza ou orienta nesse sentido se não o desejar ou não lhe conceder a prioridade devida. Realmente não há hoje razões para não oferecer a quem precisa pelo menos os cuidados médicos paliativos adequados que evitam muito do sofrimento.

Porque será que, em vez de serem exigentes perante os governos e a administração, no sentido de estes orientarem as prioridades naquele sentido, persistem tantos deputados em concentrar esforços em insistir numa solução que, no fundo, encaminha as pessoas para pedirem para morrer? E sendo esta uma alteração tão radical no modo como organizamos a vida e o seu fim, por que razão se escondem os partidos de modo geral na consciência de cada um para delegarem na iniciativa de deputados estas iniciativas, na vez de se apresentarem eles mesmos aos eleitores com propostas claras nestes assuntos? Repare-se que não discuto que a decisão de cada deputado nesta matéria é sempre uma questão de consciência individual. Mas uma coisa é aceitar a objeção de consciência neste tipo de decisão, outra é afirmar que não se tem uma conceção destas matérias enquanto partido e deixar que sejam os deputados por si mesmos a decidir o que a sua consciência indicar.

Não mudei de opinião nestes anos sobre isto. Não sendo um defensor de soluções referendárias neste tipo de matéria, compreendo que os que não se conformam com estas mudanças demasiado radicais procurem uma instância de recurso ou apelo para as evitar. Mas então faria sentido que pudessem assumir uma posição política substantiva na matéria enquanto movimentos políticos, porque é isso que fortalece o movimento de quem está contra e pede aos eleitores que não sufraguem esse caminho.

Como referi no início, não sei qual será o destino constitucional desta nova decisão do parlamento. Respeitarei, como sempre fiz, as decisões que formalmente vierem a ser adotadas. Insisto que não lanço qualquer opróbrio sobre as intenções de quem há anos insiste nestas mudanças e não desiste delas. O facto de não estar de acordo com tais ideias não me impede de reconhecer o direito que o parlamento tem de se pronunciar e deliberar sobre elas. Mas, não sendo questões passageiras e sem implicações maiores, devem merecer uma atenção política frontal de quem delas discorda. Estão os deputados que votarão favoravelmente a eutanásia persuadidos de que lutam por instituir um regime progressista e liberal, mais respeitador da dignidade humana? Não me custa aceitar que assim possa ser. Mas estou persuadido de que estão enganados nesse propósito. E quando olho para os poucos países onde tais mudanças se efetuaram e onde esse “progresso” chegou, mais razões acumulo para desconfiar da bondade dessa solução e para a rejeitar no meu país. Mais me convenço de que as boas intenções se abastardam com facilidade e de que mais nos encaminhamos para a desumanização orwelliana. Na anterior versão da lei pretendia-se antecipar a morte em razão de um “sofrimento intolerável” perante uma “doença fatal”, e agora já só se pretende reconhecer o direito a pedir a morte em razão de um “sofrimento de grande intensidade” perante uma “doença grave e incurável”? Sim, podemos julgar saber como a mudança começa, mas também sabemos como tem acabado, e sabemos isso quando olhamos para as experiências dos outros.

Mais do que esperar por uma decisão do Tribunal Constitucional, caso o Presidente da República sinta que deve suscitar a verificação preventiva de constitucionalidade ou caso um número adequado de deputados sinta que o deve fazer de modo sucessivo, o que desejaríamos era que os partidos que estão contra esta “revolução” de organização da eutanásia se comprometessem transparentemente em lutar pela sua revogação caso venham a lograr conquistar uma maioria de deputados no futuro. Era bom que se soubesse que haverá quem também não se conforma nem desiste de, no futuro próximo, colocar em cima da mesa a reversão desta decisão que o parlamento se prepara para tomar. Oferece certamente mais confiança para futuro e é claramente a democracia madura a funcionar.

1 Eutanásia é o ato intencional de proporcionar a alguém uma morte indolor para aliviar o sofrimento causado por uma doença incurável ou dolorosa https://pt.wikipedia.org/wiki/Eutan%C3%A1sia