A visão universal destes dois ismos

Vivemos num tempo em que as palavras antigas voltam a ganhar vida. Termos como conservadorismo e soberanismo, durante décadas confinados a debates teóricos ou partidários, regressam hoje ao discurso público com nova força. Para uns, representam a defesa da identidade e da liberdade dos povos; para outros, são sinais de fechamento e de desconfiança perante o mundo.
Antes de julgar, talvez importe compreender. Que significam, afinal, estes dois ismos quando observados à escala global? E será que têm os mesmos valores em todos os lugares onde se manifestam?
Ideias universais, expressões locais
Tanto o conservadorismo como o soberanismo nascem de um mesmo instinto humano: a necessidade de preservar o que dá sentido à comunidade.
O primeiro foca-se na continuidade moral e cultural; o segundo, na autonomia política e na autodeterminação coletiva.
Ambos partem da convicção de que a liberdade não é plena se a sociedade perde as suas raízes ou a capacidade de decidir por si. Mas, embora universais no impulso, estes dois ismos assumem formas muito diferentes consoante o lugar e o tempo.
Pensemos o que acontece nos mais diversos continentes:

A Europa e a memória do limite
Na Europa, o conservadorismo tem uma longa história ligada à defesa da ordem, da tradição e da prudência política.
Depois das guerras e das ditaduras do século XX, este foi reformulado como conservadorismo democrático: uma ética da moderação, que valoriza a liberdade individual sem destruir o tecido moral que a sustenta.
O soberanismo europeu, por seu lado, é mais recente. Surgiu como reação à integração supranacional e à globalização económica.
É a tentativa de reequilibrar o poder entre as instituições europeias e os Estados, recordando que a democracia só existe onde há um povo que decide.
A Europa é, portanto, o continente onde estes dois ismos coexistem em tensão: a prudência conservadora e a autonomia soberanista, ambas procurando proteger o que resta da soberania moral e política das nações democráticas.

Os Estados Unidos e o patriotismo cívico
Nos Estados Unidos, o conservadorismo é inseparável da religião civil americana — a crença na liberdade como missão e na Constituição como símbolo sagrado.
Aqui, ser conservador não significa resistir à mudança, mas preservar o espírito fundador: a fé na liberdade individual e na responsabilidade pessoal.
O soberanismo americano, por sua vez, manifesta-se sob a forma de excecionalismo. Os EUA veem-se como guardiões do próprio destino e hesitam em submeter-se a instituições internacionais.
Deste modo, o nacionalismo americano é cívico, não étnico; missionário, não defensivo.
Onde o europeu vê ameaça, o americano vê propósito.

A América Latina e a soberania como dignidade
Na América Latina, a palavra soberania tem ressonâncias de luta e emancipação. O continente nasceu de guerras de independência e de uma constante afirmação contra influências externas, primeiro coloniais, depois económicas.
O conservadorismo, aqui, é frequentemente cultural e religioso, ligado à tradição católica e à defesa da família; enquanto o soberanismo é popular e social, um grito de dignidade das maiorias contra a dependência e a desigualdade.
Em países como a Argentina, o México ou o Brasil, a ideia de nação mistura-se com a de justiça social.
É um soberanismo emocional e moral, mais do que institucional — uma forma de dizer: “somos um povo e merecemos respeito”.

A Ásia e o renascimento das civilizações
Na Ásia, estes dois ismos assumem um tom diferente — civilizacional e pragmático.
Na China, o Partido Comunista legitima-se através de um discurso de renascimento nacional: “tornar grande de novo a nação chinesa”.
Na Índia, o conservadorismo confunde-se com o hindutva (https://pt.wikipedia.org/wiki/Hindutva), a ideia de que a civilização hindu é a alma da nação moderna.
No Japão e na Coreia do Sul, o conservadorismo é tecnocrático e meritocrático, centrado na preservação da ordem social e no orgulho cultural.
Em todos estes casos, o soberanismo é menos democrático e mais estratégico: soberania como força e como destino, mais do que como escolha popular. A legitimidade nasce da estabilidade, não do voto.
Pontos em comum e diferenças essenciais
Apesar de tanta diversidade, há um conjunto de valores universais que atravessa estes dois ismos, onde quer que surjam:
- A identidade como fundamento da comunidade;
- A autodeterminação como direito político;
- A memória como fonte de legitimidade;
- A ordem como condição da liberdade;
- E a dignidade coletiva como expressão da soberania.
O que muda é a hierarquia desses valores:
.A Europa prioriza a liberdade equilibrada pela memória;
.Os Estados Unidos, a liberdade como destino;
.A América Latina, a dignidade social;
.A Ásia, a ordem e o orgulho civilizacional.
São, por assim dizer, diferentes alfabetos de uma mesma linguagem moral.
Conclusão: raízes e horizontes
Olhar para estes dois ismos à escala universal ajuda a desfazer preconceitos: nem todo o conservadorismo é reacionário; nem todo o soberanismo é isolacionista.
Ambos expressam a vontade de preservar o que dá forma à liberdade: um sentido de pertença, uma herança partilhada, um território político que o tempo legitimou.
Quando moderados pela razão e abertos à responsabilidade, o conservadorismo e o soberanismo são forças de coesão, não de rutura.
Talvez por isso continuem a regressar, cada vez que a humanidade sente que está a perder o chão.
Bem Hajam
Leituras recomendadas:
– Edmund Burke — Reflexões sobre a Revolução em França (1790) — a obra fundadora do conservadorismo moderno.
– Russell Kirk — A mentalidade Conservadora (1953) — texto central do pensamento conservador anglo-saxónico.
– Roger Scruton — Como ser um conservador (2014) — defesa contemporânea do conservadorismo como amor pelo que é familiar.
– Pierre Manent — a Razão das Nações (2006) — reflexão sobre a Europa e a nação como espaço moral e político.
– Michael Oakeshott — Racionalismo em Política (1962) — crítica à política baseada em abstrações, defendendo a experiência herdada.
Nota do autor:
Este texto não tem pretensões académicas. É uma reflexão pessoal sobre temas enquanto cidadão e observador do nosso tempo.
Este texto teve a particpação de AI