Conservadorismo e Soberanismo II

A visão europeia destes dois ismos

Depois de observarmos como o conservadorismo e o soberanismo se manifestam nas diferentes regiões do mundo, é tempo de voltar o olhar para a Europa.
É neste continente que estes dois ismos ganharam forma política moderna — e também onde se tornaram mais ambíguos.
A Europa democrática é, ao mesmo tempo, o berço e o laboratório da conciliação entre identidade e liberdade, memória e modernidade, nação e integração.

Mas, se partilham um mesmo quadro civilizacional, os países europeus interpretam de modos muito diferentes o que significa conservar e o que significa ser soberano.

A Assembleia Nacional, em Paris — símbolo da tradição
republicana e do orgulho cívico francês

França — o orgulho republicano

Na França, o conservadorismo assume uma forma peculiar: é republicano e cívico, não aristocrático.
Desde a Revolução Francesa, a Nação é entendida como o povo soberano, e não como uma linhagem ou tradição religiosa.
O conservador francês conserva a República (os valores de liberté, égalité, fraternité)— e desconfia tanto da tirania como da fragmentação.
O soberanismo, por sua vez, tem raízes no gaullismo, na defesa de uma França independente das superpotências e das instituições supranacionais.
É um soberanismo orgulhoso, mas não isolacionista: pretende autonomia dentro da cooperação, uma França que decide, mas participa.

Portão de Brandemburgo em Berlim, iluminado à noite, representando a história e a cultura alemã.
A Porta de Brandemburgo — marco histórico da
prudência alemã e da reconstrução democrática do pós-guerra

Alemanha — a contenção da memória

O caso alemão é quase o inverso.
A tragédia do século XX deixou uma marca profunda: o nacionalismo passou a ser visto com suspeita moral.
O conservadorismo alemão tornou-se constitucional e prudente, centrado no Estado de direito, na economia social de mercado e na integração europeia.
A Alemanha pós-guerra substituiu a exaltação nacional por uma forma de patriotismo cívico, que valoriza mais a responsabilidade do que o orgulho.
O soberanismo, aqui, é residual — a União Europeia é vista não como ameaça, mas como garantia de estabilidade e redenção histórica.
É o caso de um país que conserva para não repetir, e cede soberania para não perder a paz.

O Parlamento em Westminster — símbolo da tradição constitucional  e do soberanismo parlamentar britânico

Reino Unido — o soberanismo pragmático

O Reino Unido foi sempre uma exceção europeia.
O conservadorismo britânico é empírico e gradualista: confia na tradição, mas ajusta-a quando necessário.
A monarquia, o parlamentarismo e o direito, que se pratica por hábito, são exemplos de instituições que evoluíram sem rutura.
O soberanismo, porém, é aqui muito mais firme.
O Brexit foi a expressão contemporânea dessa mentalidade insular: uma defesa da soberania parlamentar e do controlo democrático sobre as decisões políticas.
Não se tratou apenas de identidade cultural, mas de autogoverno e responsabilidade.
Mesmo dividida internamente, a sociedade britânica continua a acreditar que a liberdade começa em casa.

O Palazzo Montecitorio, em Roma — sede da Câmara dos Deputados e expressão da identidade política plural da Itália

Itália — identidade fragmentada, soberania emotiva

A Itália é o país onde o conservadorismo é mais cultural do que político.
A unificação tardia e as diferenças regionais deram-lhe uma identidade plural, por vezes contraditória.
O conservador italiano defende a herança artística, a família, o catolicismo social e a vida comunitária.
O soberanismo, por outro lado, tem sido popular e reativo, surgindo em momentos de crise — contra Bruxelas, contra a imigração, contra a globalização.
Movimentos como a Lega ou Fratelli d’Italia exprimem um soberanismo emocional, que mistura orgulho nacional com desconfiança externa.
É a busca de uma Itália “normal”, mas soberana, num mundo que lhe parece cada vez mais desordenado.

O Congresso dos Deputados, em Madrid — símbolo da unidade constitucional num país de identidades diversas

Espanha — o dilema das nações internas

Em Espanha, conservadorismo e soberanismo convivem de forma tensa.
O conservadorismo espanhol é institucional e constitucional, defensor da unidade do Estado e da monarquia parlamentar.
Mas a história recente mostra o outro lado: os nacionalismos regionais (catalão, basco, galego) que reivindicam soberania própria.
Assim, o soberanismo espanhol é duplo e conflituoso: centralista no poder nacional, autonomista nas periferias.
O conservador quer preservar a unidade; o soberanista regional quer redefini-la.
O resultado é um equilíbrio frágil entre a coesão do Estado e a diversidade das identidades.

Assembleia da República, representando a estabilidade  e continuidade democrática portuguesa

Portugal — serenidade histórica, soberania discreta

Portugal tem uma das identidades mais antigas e estáveis da Europa.
O seu conservadorismo é histórico e moderado, mais cultural do que partidário: preserva a língua, o território, a história e a continuidade do Estado.
O soberanismo português raramente se manifesta em tom combativo — prefere a cooperação equilibrada, tanto com a União Europeia como com o mundo lusófono.
Ainda assim, em momentos de crise, emerge um instinto soberanista discreto: na defesa do mar, da agricultura, da língua, ou da independência económica.
É um soberanismo de dignidade e memória, não de confronto.
Portugal conserva por afeto e resiste por hábito.

Síntese europeia — unidade na diversidade

Em conjunto, a Europa mostra que não existe um único modelo de conservadorismo nem de soberanismo.
Cada país expressa estes valores à sua maneira:

  • França combina orgulho republicano com autonomia diplomática;
  • Alemanha substitui orgulho por responsabilidade;
  • Reino Unido defende a liberdade pela soberania;
  • Itália busca identidade na emoção popular;
  • Espanha equilibra unidade e pluralidade;
  • Portugal preserva serenamente a sua continuidade histórica.

Esta diversidade não é fraqueza: é sinal de vitalidade.
Mostra que, na Europa democrática, estes dois ismos são compatíveis com a liberdade, desde que moderados pela razão e ancorados em instituições legítimas.
O perigo não está nas doutrinas, mas no esquecimento do equilíbrio que as sustenta.

Bem Haja.

Leituras recomendadas:

·  Charles de GaulleO fio da espada  (soberania francesa)

·  Zbigniew BrzezinskiO grande tabuleiro (Europa e equilíbrio estratégico)

·  Anthony GiddensA Terceira via (para perceber o papel da UE)

·  Timothy Garton AshA lanterna mágica (Europa Central)

·  HabermasA constelação pós-nacional (contra a soberania clássica)

Nota do autor:

Este texto não tem pretensões académicas. É uma reflexão pessoal sobre temas que me interessam enquanto cidadão e observador do nosso tempo.

Este texto teve a participação de IA